CAPÍTULO 4

O tédio de mais um final de semana chuvoso e, a falta de ter o que fazer, me levaram a traduzir o conteúdo da tábua de argila, mesmo tendo convicção de que era um embuste. Levei algum tempo até encontrar um padrão. Apesar de, muito parecida com a escrita Suméria, ainda assim, a escrita da tábua, apresentava particularidades que eu nunca havia visto. Fui criando, a parte, um dicionário para me guiar, isso me consumiu toda a noite de sábado, quando vi, já havia amanhecido, mas, estava sem sono, minha curiosidade era maior. Se for uma brincadeira, é muito bem elaborada, pensei, tendo em vista a dificuldade na tradução.
Quando terminei o dicionário, estava faminto, fiz um lanche e, com o dicionário em mãos, comecei a reescrever, agora em português o conteúdo da tábua.

***

Ela corre pela floresta abaixo de chuva, que está muito forte. Quase não se vê nada, a não ser pelos relâmpagos, que clareiam tudo com sua fantasmagórica luz azul.
A escolha desta noite foi proposital, afinal, a tempestade tornaria mais difícil a sua localização, e também, ela sabe que eles não gostam de sair na chuva. Só torce para que o bote inflável que leva consigo resista à travessia.
Em sua mochila leva um pouco de comida, água potável, suas poucas roupas e algumas roupinhas de bebê que conseguiu com uma amiga. Como geóloga, estudou bem o relevo do outro lado do mar. Havia muitas cavernas que usaria como abrigo e esconderijo. Realizaria a travessia através do perigoso canal, que é a parte mais estreita do mar próximo à cidade, as correntes marinhas levariam seu bote inflável até a outra margem, já havia calculado. Isso se os ventos da tempestade não a carregarem para outro lugar - Desde que seja para longe deles, tudo bem! - Pensava consigo mesma.
Ninsun havia sido bem educada, e preparada para trabalhar como geóloga, iria acompanhar seu senhor na prospecção de novas áreas para mineração, mas sua curiosidade ia além de sua especialização. Sempre foi uma leitora assídua e, sempre que tinha oportunidade estava lendo. Em sua pequena bagagem, incluiu ainda alguns livros, que saberia, seriam úteis.
Muitos já tentaram fugir, mas ninguém ainda conseguiu. Todos haviam morrido. Ninsun estudou cada um dos casos e, sabe perfeitamente o que deu errado em todos eles. Em todas as tentativas, sem exceção, os fugitivos seguiram para a floresta, ninguém tentou fugir pelo mar, e tinham um bom motivo para isso.
O mar é um local traiçoeiro, repleto de seres gigantescos, ávidos por alimento, seria loucura tentar atravessá-lo, mas era sua única chance. Precisava salvar seu filho.
Ninsun estava grávida de seu senhor. Apesar de ter engravidado através de um ato de violência, não podia permitir que matassem seu filho, e estava disposta a arriscar tudo para salvá-lo. Estava chegando próximo ao mar, como eles consideravam impossível a fuga através dele, não havia postos avançados de vigilância, apenas canineus treinados guardavam o caminho. Ela preparou um pouco de alimento com o forte sonífero, que o seu senhor usava em sua esposa sempre que queria manter relações com Ninsun.
Com a ajuda de um par de óculos de visão noturna, que “pegou emprestado” de um sentinela, identificou alguns canineus próximos ao mar. Os canineus, são animais parecidos com os lobos, porém artificiais e muito mais inteligentes, normalmente usados como guardas. Seus senhores costumavam cuidar de seus canineus da mesma forma com que cuidavam de seus escravos, assim, Ninsun tinha a certeza de que estariam com muita fome.
Estava certa. Tão logo arremessou os pedaços de comida com sonífero, os canineus gulosamente devoraram tudo, sem ao menos se darem conta de sua presença. Em poucos segundos tombaram sedados.
Agora o mar estava a sua frente, era o próximo e mais ameaçador desafio.

***

Quando acordei, estava com o rosto deitado em cima da tábua, lá fora, o dia estava claro.
Cambaleante, fui ao banheiro lavar o rosto. Ao olhar no espelho, vi, claramente, as marcas de escrita cuneiforme em minha bochecha direita.
– Encontrei um novo método de decalque. – Pensei.
De volta ao quarto, procurei meu celular para ver as horas, 7:32. Graças a ter passado a noite em claro, estava perdido e, não tinha certeza de que dia era. Quando consultei, a data, também no celular, é que descobri que já era segunda-feira.
- Cacete, estou atrasado!
Nunca gostei das segundas. Se pudesse, minha semana começava na terça. Segundas sempre me deprimem me deixam de mal humor. Infelizmente, fechou uma turma de línguas antigas, justamente na segunda-feira, de manhã, primeira aula. Deve ser carma.
Mesmo durante a aula, não consegui tirar da cabeça a tábua de argila, nem a estranha tradução. Ninguém faria uma brincadeira tão elaborada, e se for alguém tentando ganhar fama... nem ao menos citou seu nome verdadeiro. Não faz sentido.
No intervalo das aulas, comentei sobre este assunto com uma colega professora que, chamarei de Mari, também um nome fictício.
- É muito simples saber se é verdadeira – falou Mari -, use termoluminescência.
Termoluminescência é um método utilizado para se determinar a idade de objetos com mais de 50 mil anos ou cuja idade não tenha relação com compostos orgânicos, como a cerâmica. O método consiste em medir os pequeninos defeitos que aparecem no material de que é feito o objeto, decorrentes da radiação a que ele está submetido: pode ser radiação cósmica, radiação do ambiente ao redor do objeto ou do próprio material de que ele é feito. Quando a radiação reage com o objeto, são liberados elétrons das suas moléculas. Alguns desses elétrons são aprisionados em defeitos no material do objeto. Algumas moléculas, portanto, não recebem seus elétrons de volta e ficam ionizadas.
À medida que o tempo passa, mais e mais elétrons vão ficando aprisionados. Quando o objeto é aquecido, a energia térmica fornecida aos elétrons é suficiente para eles se libertarem e se recombinarem com as moléculas ionizadas, restituindo a situação original. Nesse processo de recombinação, é emitida energia luminosa, que constitui a termoluminescência.
- Este é o método mais seguro – prosseguiu ela -, você sabe que carbono 14 não funciona bem com cerâmicas.
- É, eu sei. – Respondi – A não ser que a cerâmica seja pintada com tinta de origem orgânica.
- E mesmo assim só funciona para objetos com até 40 mil anos e, segundo a carta, sua tábua tem mais de 150 mil anos!
- Isso é o que diz a carta, o que duvido muito. – Falei – Mas, no Brasil, equipamento para datação através de termoluminescência, pelo que sei, só a USP possui.
- Sim – Concordou a professora -, e eu conheço alguém importante na USP. Nós ficamos uma vez e, sempre que vou até lá, ele me convida para sairmos novamente. Se quiser eu consigo o teste para você.
- Seria ótimo. Assim constato de uma vez por todas que a tábua é falsa.
- Tenho uma palestra na USP neste sábado. – comentou Mari. – Vamos juntos, aí você já faz o teste, e aproveita para me fazer companhia. – Abaixou-se sobre a mesa e cochichou – Assim evito ter que sair de novo com aquele chato.
- Seria ótimo. Obrigado, você é muito legal. – Falei pegando em sua mão ao que, ela sorriu timidamente, e respondeu.
- Eu vou ligar agendando o teste.
Fazer o teste parecia, a principio, a melhor opção, pois indicaria se de fato a objeto era verdadeiro, ou uma falsificação. No entanto, serviu para mais que isso, serviu também de lição.
Aprendi a tomar mais cuidado com as pessoas ao meu redor.