CAPÍTULO 23

Depois de muito discorrer sobre o assunto, cheguei a uma conclusão bombástica: não sei ganhar dinheiro.
Muitos colegas já haviam falado sobre isso comigo, sobre como eu, com meu conhecimento e anos de estudo, deveria estar em uma universidade maior, certamente em outro país, ganhando em Euro. Mas gostava de onde lecionava, me sentia feliz e, para mim, era isso que importava.
Agora, no entanto, não possuo nem minhas aulas, e meu acanhado salário de professor. Não imaginei nada que pudesse fazer para levantar algum recurso, pelo menos, nada que conseguisse utilizar meus conhecimentos.
Minha única idéia foi vender o que possuo de valor em meu apartamento. Teria que vender qualquer coisa que não houvesse a necessidade de transferência de documentação, como carro ou o próprio apartamento, este realmente, não tenho nenhuma intenção em vender. Em meu apartamento, possuo muitos eletrônicos e algumas obras de arte, não muito valiosas, mas que, com a venda, poderia levantar algum dinheiro.
Mas como vender sem voltar a Curitiba?
Teria que pedir ajuda, e a única pessoa que lembrei, e que sei com absoluta certeza que me ajudaria sem pestanejar, é minha amiga Mari.
Comprei um cartão telefônico, fui até um orelhão próximo e fiz a chamada.
- Alô. – Falou a pessoa.
- Alô, Mari? – Perguntei.
- Sim, quem está falando?
- Val sou eu, Prawdanski!
- Prawdanski? Por onde você anda? Fiquei preocupada, achei que haviam te capturado!
- Não, eu consegui fugir... preciso te pedir um favor.

***

Os dias foram passando e Ninsun foi relaxando.
Agora já deixava Gil e o Anunnaki juntos, mas estava sempre de olho e, para dormir, sempre levava Gil até a caverna no alto do morro deixando o Anunnaki próximo a praia. Começou a entender que o Anunnaki precisava realmente de sua ajuda, e que, por enquanto, não faria mal a Gil, aliás, tentava a todo custo ser amigo dele, talvez porque lhe seja familiar, afinal, o pai de Gil é um Anunnaki. Ela precisava descobrir mais sobre o estranho, e saber como e porque chegou até aqui. Mas, precisava ser cautelosa, os Anunnakis são, por sua natureza, dissimulados. Aproveitou à hora da refeição para tentar, sutilmente, levantar alguma informação.
- Me diga uma coisa – perguntou Ninsun -, como se feriu tanto? Se não o houvéssemos encontrado, certamente estaria morto!
- É verdade. E serei eternamente grato pela sua bondade. – Respondeu formalmente o Anunnaki – Já estou perdido há muito tempo, e me machuquei tentando voltar para os meus, para a Eridu.
- Eridu? – Perguntou Gil – O que é Eridu?
- Eridu é uma cidade Anunnaki, aqui em Nippur! – Respondeu o Anunnaki.
- Cidade? – Perguntou Gil ficou curioso.
Sua mãe sempre lhe falou das grandes cidades de Nibiru, mas nunca lhe falou sobre uma cidade em Nippur, e o motivo era simples: a curiosidade de Gil, que certamente o levará para lá.
- Sim Gil, existe uma cidade aqui perto. – Respondeu o Anunnaki.
- Gilgamesh, o nome dele é Gilgamesh! – Interrompeu Ninsun ciumenta.
- Ok. “Gilgamesh” – continuou o Anunnaki –, existe uma cidade Anunnaki aqui em Nippur, e muitos Anunnakis e Lulus moram lá.
- Anunnakis morando, e os Lulus sendo obrigados a servi-los! – Completou ironicamente Ninsun.
- Porque não me contou da cidade mãe? – Perguntou Gil irritado – E de todos que vivem lá?
- Eu iria lhe contar quando chegasse a hora certa Gil. – Respondeu Ninsun, mesmo sem saber se realmente contaria algum dia – Já lhe falei que há muitas coisas que você ainda precisa saber, mas só quando chegar a hora. Mas você não terminou de nos contar como se feriu... – desviou a conversa para o Anunnaki - qual é mesmo seu nome?
- Meu nome? – Responde o Anunnaki - Meu nome é Enki!
- Mentira. – Gritou Ninsun, pondo-se em pé, já com a lança na mão – Enki morreu, foi assassinado. E a sua morte foi o inicio do inferno em nossas vidas, na vida dos Lulu Amelus.
- Realmente houve uma tentativa em me matar, e foi por tentar defender uma de vocês, mas, eu me salvei!
- Eu não acredito. Sabia que não podia confiar em um Anunnaki, você está mentindo! – Falou Ninsun extremamente nervosa, puxando Gil pela mão – Vamos embora Gil. – Já saindo da caverna, virou-se para o Anunnaki e completou - Se você já tem condições para inventar mentiras também tem condições para se cuidar sozinho. Adeus!
- Espere, não é mentira! – Gritou o Anunnaki – Eu sou realmente Enki!
Mas Ninsun não esperou. Foi puxando Gil, a passos largos, até a caverna onde estão pernoitando. Ninsun chegou chorando. As lembranças daquele momento eram trágicas, as feridas ainda doem.
Enki foi um bom Anunnaki, um dos poucos, mas foi assassinado. A história é clássica, e sempre lembrada a todos os Lulus, para que sirva de exemplo, Ninsun a conhecia de cor, todos os Lulus a conheciam. Mas, para os que a presenciaram, a dor era ainda maior.
Ela tinha apenas seis anos quando aconteceu, na época, não entendeu nada. Aquele tumulto, aquele desespero, a imagem de sua mãe tentando tapar sua visão para poupá-la de testemunhar tamanha crueldade, e a de um Anunnaki batendo nela, gritando que todos deveriam assistir. Todos, não importando a idade.
Aquele momento deveria servir de exemplo a todos os Lulus, para o resto de suas curtas vidas e também para, as gerações vindouras.