CAPÍTULO 29

Gil está brincando na areia da praia próxima a caverna.
Gostaria muito de entrar no mar, mas Ninsun não permite. Ela tem medo, e com razão, dos animais que habitam este mar. De repente Gil para de brincar, ergue a cabeça olhando para leste e grita:
- Hughu! Hughu está chegando! Os kerabulus estão chegando! – E sai correndo nesta direção.
Ao ver sua atitude, sua mãe olha para o leste para ver os kerabulus, mas não os vê, ela se vira para Enki que está com ela e é mais alto, e pergunta:
- Vê algo?
- Não, nada. – Responde Enki, espichando o pescoço para ver mais longe.
O dia vai passando e nem sinal de Gil retornar, nem só e muito menos com os kerabulus. Sua mãe está preocupada.
– Ele se enganou! – Fala para Enki – Eles nunca vêm do leste. Gil já devia saber disso!
- Acalme-se Ninsun – respondeu Enki, tentando acalmá-la -, este mundo é a casa dele, ele o conhece muito bem.
Ninsun sabe da boa vontade de Enki em acalmá-la, mas é inevitável preocupar-se, afinal, os perigos existem.
Já estava escurecendo quando ela ouve uma algazarra. Imediatamente Ninsun se põe em pé e vê, ao longe, ao leste, um grupo de kerabulus. Gil está entre eles, ela sabe por que ele se destaca em meio ao grupo, afinal é quase o dobro do tamanho do mais alto kerabulu. Seu coração de mãe acalma-se.
A chegada foi uma festa, com muitos abraços a Ninsun, isso até que o Anunnaki resolveu sair da caverna. Foi o maior alvoroço, com kerabulus correndo e gritando para tudo quanto é lado. A fama dos Anunnakis se espalhou pelo planeta e todo ser com um pouco de inteligência tem medo deles. Levou algum tempo até que Ninsun e Gil conseguissem reunir novamente o grupo de kerabulus, explicando que este Anunnaki, em particular, e neste momento, não é uma ameaça.
A noite foi relativamente agradável, apesar da desconfiança dos kerabulus em relação à Enki. Como sempre, eles trouxeram carne fresca e muita pele curtida como presente para Ninsun e Gil. Ninsun também havia confeccionado algumas botas de couro para proteger os pés dos kerabulus da neve, ela já os havia presenteado com roupas, mas eles não as usavam, as botas sim, quase todos gostavam de usá-las.
Desta vez, eles realmente vieram do leste, ordens do novo líder, Hughu.
Gil não estava contente com isso, seu amigo de infância, Hughu, agora, em seus plenos Dezoito anos, já é um adulto. Isso de deve à expectativa de vida dos kerabulus, que é de trinta anos de Nippur, muito baixa, até mesmo para os padrões dos Lulus, que beiram os cento e oitenta anos, isso se não forem muito maltratados durante a vida. Com isso, a maturidade para os kerabulus chega antes, e agora, ele também é o líder do bando, com responsabilidades ainda maiores, não podia mais brincar com seu amigo de infância, Gilgamesh.
- Vocês Anunnakis também conseguem pressentir algo assim como Gil? – Perguntou Ninsun à Enki – Ele não tinha como saber que eles viriam do leste!
- Não, eu nunca vi isso antes! – Respondeu o desconfiado Anunnaki – Pode ser que ele tenha o olfato mais apurado, ou coisa parecida.
Como de costume, os jovens kerabulus e Gil brincavam de esconde-esconde à noite, enquanto os adultos conversam, apesar do vocabulário limitado dos kerabulus, em volta da fogueira. Naquela noite, porém, não teve graça, pois Gil sabia exatamente o lugar onde cada um estava escondido, ele não tinha a menor idéia de como, mas sabia.
O mais estranho aconteceu quando foi a sua vez de esconder-se, parecia que não importava onde estivesse escondido, os jovens kerabulus não o achavam, às vezes passavam esbarrando por ele sem o ver. Enki só os observava de longe, tentando imaginar o que estava ocorrendo com Gil. O que este único ser hibrido existente traria de surpresas.

***

E foi assim, através de uma paralisação por parte dos mineiros Anunnakis, que iniciou a criação dos Lulus.
Aconteceu antes do previsto, o que, quase resultou na prisão de Enlil, por ferir as severas, mas necessárias, leis ambientais de Nibiru. No final tudo deu certo, mas, Enlil aprendera uma lição, e não iria admitir mais manifestos, odiava ser obrigado a fazer algo que não estivesse em seus planos.
Precisava acabar com os protestos dos Lulus, parece que mandá-los para as aralis não era mais tão ameaçador. Finalmente tomou uma decisão que poderia minimizar os protestos dos Lulus.
A partir daquele momento, todos os Lulus seriam vigiados o tempo todo, não importa se estiverem em seus abrigos, nas ruas ou trabalhando.
Câmeras começaram a ser instaladas em todos os lugares frequentados por eles, e uma equipe de monitoramento foi criada. Ao menor sinal de um ato subversivo, os responsáveis deveriam ser eliminados imediatamente, o Estado indenizaria os proprietários.
Esta atitude deveria conter os Lulus, mas, na prática, acabou mesmo, revoltando os Anunnakis.