CAPÍTULO 31

- Eu já conhecia esta espécie! – Falou Enki para Ninsun, apontando para os kerabulus.
- Soube que vocês os caçam. – Respondeu rispidamente Ninsun – Eles me contaram.
- Quando eu era o administrador das aralis, aconteceu uma vez. Mas, tomei providências para que não ocorresse mais. Depois que me mataram... - falou em tom de brincadeira - aí eu não sei!
Tudo aconteceu quando a mineração estava parada. Os trabalhadores estavam esperando pelo Chanceler e, enquanto estavam parados procuravam formas alternativas para passar o tempo, uma das encontradas foi caçar.
Um grupo saiu armado pela savana, obviamente não estavam caçando por precisarem de alimento, mas foram levados por um instinto primitivo pela aventura. Em uma pequena lagoa encontraram um grupo de animais, formado por cerca de vinte indivíduos, entre machos, fêmeas e filhotes. O que chamou a atenção dos Anunnakis foi o fato dos animais andarem eretos, eram seres bípedes. Os trabalhadores ficaram algum tempo observando seu comportamento, eram seres pequenos, em torno de um metro e meio de altura com pelos avermelhados e ralos, as fêmeas levavam sua prole nos braços, da mesma forma que os Anunnakis.
Um dos membros, um macho, carregava consigo um instrumento de pedra semelhante a uma machadinha. Ele observava com atenção o que ocorria a volta do grupo espichando seu corpo o máximo possível, virando sua cabeça freneticamente para todos os lados, atento a sinais de perigo. Os demais bebiam água da lagoa pegando-a com suas pequenas mãos, com as quais faziam uma espécie de conchinha. Nem suspeitavam que eram observados.
De repente um dos trabalhadores Anunnaki levantou-se rapidamente e gritou:
- Atacar !!!
Saiu correndo em direção ao grupo de pequenos animais bípedes, todos os outros Anunnakis o seguiram.
O líder do grupo de animais, aquele que estava com a machadinha, ao ver o perigo se aproximando começou a grunhir ao que todos os outros começaram a gritar e correr espalhando-se em várias direções. Os Anunnakis avançavam ferozmente enquanto preparavam as armas. As fêmeas com filhotes eram seguidas pelos machos que pareciam protegê-las.
O líder com a machadinha continuou inerte e de frente para os agressores. Ao vê-los aproximar ergueu sua machadinha em posição de ataque. Um tiro foi disparado, a machadinha caiu ao chão e, ao seu lado tombou morto o líder do bando. Vários outros animais do bando também foram abatidos pelos trabalhadores. Vendo um dos seus cair, uma jovem fêmea volta na tentativa de socorrê-lo, enquanto ela o puxa pelo braço, em uma vã esperança que a seguisse, nem percebe a presença que se faz por traz de si, e sem esperar, é atingida por um pancada. Cai desacordada no gramado.
O grupo de Anunnakis volta para seu alojamento festejando da caçada, trazendo consigo as carcaças abatidas e a fêmea prisioneira, ainda viva. Enki, ouvindo a vozearia, fica curioso e sai de seu improvisado escritório seguindo em direção ao grupo de caçadores.
- O que aconteceu? - Pergunta Enki – Qual o motivo da festa?
- Realizamos uma ótima caçada hoje! – Responde, animadamente, um dos Anunnakis
- Vejo que sim, mataram vários animais. – Fala Enki, e mexendo na fêmea amarrada, pergunta - Esta ainda está viva?
- Sim. E para esta nem precisamos usar armas. São seres muito burros mesmos! – Todos, com exceção de Enki, caem na gargalhada.
- Ela tem aparência de uma mulher. - Falou outro Anunnaki - Se não fosse esta cara de símio e os pelos, podíamos utilizá-la como companheira. – Vários riram do comentário, o que fez o Anunnaki retrucar, bravo - Do que vocês estão rindo? Há quanto tempo estamos aqui, neste planeta medíocre, sem uma Anunnaki fêmea?
Enki, porém não estava achando graça e falou.
- Deixem todos estes espécimes no almoxarifado, vamos enviá-los para o Doutor Anzu. A ele serão úteis, ou vocês os querem como alimento?
- De jeito nenhum! – Falou rapidamente um Anunnaki – Que nojo. Nós temos muita comida boa aqui, não precisamos destas porcarias.
- Nem que eu estivesse morrendo de fome! – Falou outro.
De volta ao seu escritório, Enki chama seu assistente, Ereshkigal e o cozinheiro responsável pela comida dos Anunnakis e os leva até o almoxarifado onde, além dos animais mortos, está à fêmea, ainda viva e gritando desesperadamente.
- Acomode este animal vivo em uma caixa confortável – falou Enki à Ereshkigal -, lhe dê água e comida e envie ao imediatamente ao doutor Anzu, pode ser útil para os seus estudos. Quanto a estes animais mortos - falou para o cozinheiro -, cozinhe-os e os sirva como jantar aos trabalhadores. Não faça mais nada, somente os animais abatidos.
Os dois responderam afirmativamente ao Gerente das Aralis, mas, ele ainda chamou o cozinheiro, e completou:
- Só mais uma coisa... não use tempero nenhum. Sirva-os puro!
A hora do jantar era esperada ansiosamente pelos trabalhadores, hoje porém tiveram uma desagradável surpresa.
Os protestos não tardaram a começar, alguns acharam que era uma brincadeira de mau gosto e começaram a esbravejar, outros ainda mais exaltados jogaram a carne da caça sem tempero novamente na panela soltando palavrões ao cozinheiro. Após muita exaltação, finalmente Enki entra no refeitório e grita:
- O que está acontecendo aqui? - Neste momento todos silenciaram, apenas um dos trabalhadores respondeu.
- Veja o que foi servido para nosso jantar!
- Deixe-me ver. – Falou Enki enquanto se aproximava do Buffet – Humm, me parece carne da caça que alguns de vocês trouxeram hoje.
- É isso mesmo. Nós não vamos comer isto!
- Muito bem. - Disse Enki calmamente - Hoje um grupo de vocês resolveu se divertir caçando animais nativos. Vendo isso, imaginei que vocês estivessem querendo voltar a nossa era primitiva, antes da civilização, quando éramos seres bárbaros, praticávamos até mesmo canibalismo. Para informação de todos, era assim que se comia a caça naquela época, sem nenhum tempero. Só estou deixando completo o desejo de vocês, de tornarem-se novamente selvagens. Só espero... que não se tornem novamente canibais!
- Nós só queríamos caçar para nos divertir e não comer a caça! - Respondeu um dos Anunnakis que estava no grupo dos caçadores.
- E porque não querem comer? – Perguntou Enki.
- Porque nós temos o que comer. Só queríamos nos divertir!
- Era ai que eu queria chegar. - Falou Enki - Caçar para matar a fome é algo aceitável, até animais selvagens o fazem, é questão de sobrevivência. Mas vocês que se julgam civilizados, praticarem um ato tão bárbaro é inconcebível. Lembrem-se do que fizemos com nosso planeta e que, devido a isso, estamos aqui hoje, em uma tentativa desesperada de nos salvar. Este será o único alimento que terão neste jantar. E se eu souber que mais algum ato destes ocorreu, mando os responsáveis na próxima espaçonave que sair para nosso planeta. Sei que isso irá agradar a muitos de vocês, que querem voltar para casa, mas não voltarão para os seus e sim direto para prisão de Charak! – Enki fez uma pausa esperando reclamações. Como não vieram, concluiu - Bom jantar a todos!
Falando isso Enki saiu e foi para seus aposentos. O silêncio tomou conta do refeitório, eles acharam injusto o castigo, afinal, para eles, eram somente animais, mas ninguém ousou contestar, afinal a prisão de Charak é famosa e temida. Ela foi criada pelo Rei Anun, logo após assumir o trono. São enviados para lá todos que cometem crimes ambientais e lá recebem um severo castigo durante toda sua longa estadia, que pode se estender até o fim de suas vidas, com certeza é muito pior do que estar ali, nas aralis.
- Que barbárie. – Comentou Ninsun ao fim da história – Como vocês são cruéis!
Enki baixou seu olhar tristemente, e falou:
- As vezes... eu sinto muita vergonha em ser um Anunnaki!