CAPÍTULO 36

Dez horas da noite, hora de encerrar a aula de hoje.
Já estava na fazenda, ensinando francês à filha do fazendeiro a mais de três meses. Estava bom, mas logo estaria na hora de ir embora, afinal, a data de sua viagem a França se aproximava.
Por escolha própria, preferi não ficar no casarão sede da fazenda, preferi ficar no chalé que fica ao lado do lago a uns 150 metros da sede, batizado de paiol de pescaria. Na verdade é maior e mais aconchegante que meu apartamento.
Como a filha do fazendeiro, que não vou citar o nome para sua própria segurança, não gosta de acordar cedo, nossas aulas ocupavam o período da tarde e da noite, restando para mim todo o período da manhã livre, para trabalhar com a tradução dos decalques das tábuas.
Esta noite não foi exceção.
Porém, uma súbita mudança na temperatura pegou a filha do fazendeiro desprevenida. Ao abrir a porta do chalé, percebeu o quanto estava frio, e me pediu uma blusa emprestada para não se resfriar no trajeto até sua casa. Ela acabou pegando uma blusa que estava jogada sobre uma poltrona e que eu próprio havia usado na noite anterior.
A filha do fazendeiro se despede e sai pela noite, em direção a casa sede.
Durante minha estada na fazenda, peguei alguns costumes, um deles foi escovar os dentes ao ar livre, apreciando a natureza. Peguei minha escova de dentes e saí para perto do lago. A noite estava incrível, apesar da baixa temperatura, havia uma enorme lua cheia no céu o que clareava toda a paisagem. Uma visão que por si só já valeria a estadia neste local.
Minha contemplação, porém, foi interrompida por um grito, e não foi um grito qualquer. Foi um grito desesperado, angustiante, realmente um grito de pavor. Imediatamente, reconheci a voz.
- É a filha do fazendeiro!

***

- O que você está dizendo é um absurdo! – Falou Ninsun a Enki quando ele lhe contou sobre suas desconfianças sobre Gil, e sobre sua pequena pesquisa.
- Eu já estava desconfiado desde que o conheci. – Respondeu Enki – Eu fiz testes simples, tudo bem que, sem o rigor de um laboratório... mas, a conclusão foi extremamente clara. Faça você mesmo um pequeno teste, peça simplesmente para ele adivinhar seu pensamento, ele vai adivinhar. Ele pode ler pensamentos!
- Eu nunca li em nenhum livro em que isso poderia ser possível. – Retrucou Ninsun, incrédula.
- Ninsun – Enki respirou fundo, pensando bem as palavras para tentar explicar o que, para ele próprio era sem explicação -, eu sou cientista. Meu pai era cientista. Minha criação e minha formação acadêmica foram envoltas em pesquisa cientifica e, nunca soube de nada parecido. É impressionante... mas é verdade!
Ninsun foi atrás de Gil, sentia que precisava lhe dar alguma explicação. Ela não sabia ler pensamentos, mas o conhecia muito bem e sabia exatamente onde estaria.
Existe um morro próximo, de onde é possível observar quilômetros mar adentro. Do outro lado está Eridu, a cidade Anunnaki. Desde criança, Gilgamesh gostava de subir neste morro e observar, não dava para ver a cidade, tão pouco ele sabia de sua existência, mas, de alguma forma, aquele lugar o atraia, despertando em si, um sentimento de melancolia e saudades, saudades de algo que não conhecia.
- Gil! – Falou sua mãe ao vê-lo sentado sobre o morro, em que já sabia de antemão que o encontraria.
- Vá embora. – Respondeu Gil chorando.
- Porque toda esta agressividade filho?
- Eu sei o que vocês fizeram.
- Você viu? – Ela perguntou testando o que Enki havia lhe falado.
- Não. Mas eu sei. Vocês voltaram pensando nisso!
Foi inevitável lembrar-se do que Enki falou – Gil consegue ler pensamentos! -, mesmo após a frase de Gil, ainda assim estava muito difícil para Ninsun acreditar. A idéia de ler pensamentos vai de encontro a tudo que aprendeu, seja na sala de aula, nos livros, ou em sua curta, mais intensa, experiência de vida. Sabia que precisava pensar mais neste assunto e amadurecer a idéia, mas, por hora, precisava apenas, acalmar Gil.
- Você sabe – prosseguiu Ninsun -, que machos e fêmeas fazem isto. Nós já conversamos sobre este assunto.
- Eu sei. – Respondeu Gil - Hughu também me contou que faz e por isso vai ser pai!
- Viu querido, isto faz parte da natureza. Todos os animais fazem! – Falou passando a mão na cabeça de Gil.
- Mas logo com Enki. Não será bom para você. Não quero perde-la!
- Você não vai me perder querido, não seja ciumento.
- Não é ciúme, se continuar com ele, eu a perderei.
- Deixe de bobagem, jamais o deixarei.
- Sim, deixará. Se continuar com ele... você me deixará!