CAPÍTULO 27

Não tenho dúvidas, preciso fugir.
Logo que recebi a noticia de que estavam me procurando, de que alguém se identificando como policial estava vasculhando a cidade, voltei para o hotel, peguei minhas coisas e segui para a rodoviária. Iria para outra cidade, algum lugar bem longe, agora tomando mais cuidado com minhas ligações.
Como havia saído de Curitiba com o uniforme que peguei no vestiário de uma empresa, precisei comprar roupas novas. Isso foi bom porque, comprando roupas em lojas da cidade, fiquei mais parecido com um cidadão local. Este foi um erro grave cometido pelos meus perseguidores.
Destacando-se, mesmo a uma boa distância, estavam eles, de sentinela na rodoviária. Eram dois rapazes com postura militar e vestindo roupas inconfundivelmente de cidade grande. Certamente estavam esperando por mim, sabiam que, para sair da cidade, precisava pegar um ônibus. Tinha que encontrar um plano B, a rodoviária estava fora de cogitação.
Voltei ao pequeno centro da cidadezinha, e procurei me misturar com os locais, eles seriam a minha camuflagem. Em vários pontos observei homens vestidos como os da rodoviária, e eram muitos. Certamente estavam realizando um “pente fino” a minha procura. Alguns abordavam os transeuntes e mostravam-lhes fotos, fazendo-lhes perguntas, provavelmente sobre mim.
No meio desta confusão toda, fui abordado por uma moradora local e seu pai.
- Você é quem trabalha com tradução de obras literárias? – Perguntou à jovem.
- Errr... depende... – respondi, meio desconcertado.
- Você fala Frances, não fala?
- Bem... sim, mas...
- O negocio é o seguinte. – Interrompeu o pai da jovem. Um fazendeiro local, bastante conhecido. Com seu típico chapéu e bigode, com olhar austero e decidido. – Minha filha vai estudar na França, é o sonho dela. Só que ela não fala nada deste diabo de língua. Viemos justamente para falar com você, porque soubemos que fala Francês. Preciso que ensine ela, preço não é problema.
- Seria ótimo ajudar mas... – respondi com um olho no gato outro no peixe, porque meus perseguidores se aproximavam – infelizmente estou de partida.
- Sei, entendo. É uma pena... – Respondeu o fazendeiro.
Neste momento os homens que estavam a minha procura se aproximam ainda mais, me pareceu que um deles olhou diretamente para mim. Meu coração foi para boca, se for encontrado, serei um homem morto, e não gostaria de morrer, pelo menos, não agora. Não tive opção e, por impulso, falei:
- Pensando bem, vou aceitar o convite, mas com uma condição, que tenha abrigo em sua fazenda para mim. – Vendo a cara de estranheza dos dois, completei com um sorriso amarelo – Preciso mesmo respirar um pouco de ar puro do campo. Vamos agora?
Ficou bem claro que, tanto pai como filha, não entenderam nada, mas não importava, não neste momento. Entramos em sua caminhonete importada, que felizmente, é equipada com insulfilm bem escuro, o que me protegeu. Mas, só voltei a respirar, quando saímos da cidade, quando tudo o que se via, eram as aparente infinitas, plantações.

***

Existem coisas que é melhor não sabermos.
Principalmente quando é algo terrível e, que não podemos fazer nada para mudar. Lizi sentiu isso na pele ao vasculhar os arquivos dos Anunnakis armazenados no servidor, chamado de Grande Cérebro.
Ao entrar neste computador, o primeiro Anunnaki pelo qual ela buscou informações foi, como era de se imaginar, Nebo. Mas não havia nada sobre ele que ela já não soubesse, então resolveu vasculhar os arquivos da pessoa mais poderosa de Nippur, o Chanceler Enlil. Por sorte ou não de Lizi, Enlil tem o costume de anotar no computador todas as suas idéias, para organizá-las melhor. Infelizmente, as anotações só traziam más noticias.
Agora ela sabia do destino de Nippur, juntamente com o de todos os seus habitantes, e não era nada bom, e pior ainda, sequer poderia contar a alguém sobre o que viu. Se Nebo descobre será o fim de seu casamento, que era único entre as Lulus. Só o pensamento em ter que se afastar de Nebo lhe trouxe um pânico incontrolável. Ela o ama e seu casamento está sendo muito feliz. E esta felicidade, ela sabe bem, é impossível aos outros Lulus.
Nebo notou que Lizi não estava bem, estava estranha, diferente. Quem ama nota sutilizas na pessoa amada.
- Tudo bem Lizi? – Pergunta Nebo preocupado – Você está tão calada. Aconteceu alguma coisa?
- Não... nada, estou bem! - Responde Lizi, com medo que ele soubesse de algo. - Só estou um pouco cansada.
- Quer ficar de novo em casa hoje? - Perguntou carinhosamente Nebo - Fique e descanse.
- Não! Eu quero ir trabalhar. Sabe que gosto do nosso trabalho, e depois, ainda fico junto com você. – Mostrou um sorriso meigo.
O trabalho é a sua tentativa de manter sua cabeça ocupada para não pensar mais no que viu. Seu trabalho é ideal para isso, precisam estar muito concentrados no que estão fazendo, isso desviava os pensamentos inconvenientes.
Lizi esperava que, desta forma, conseguisse manter sua sanidade, frente ao que sabia, frente à tragédia que se aproximava a passos largos, inevitável, assustadora...