CAPÍTULO 25

Não tenho a mínima idéia de quem são as pessoas que querem as relíquias, mas, eles são eficientes.
Liguei para Mari a noite, pedindo para vender o que for possível de meu apartamento, e que, iria pensar em uma forma para buscar o dinheiro. Na manhã do dia seguinte como de costume, fui à padaria próxima para tomar meu café da manhã, e encontrei, também como de costume, as mesmas pessoas que encontro todos os dias, que já se tornaram minhas novas amigas. São pessoas simples, em sua maioria aposentados que aproveitam o ambiente da padaria para jogar um pouco de conversa fora, discutir assuntos do Brasil e novidades na cidade.
Foi quando descobri uma das vantagens em se morar numa cidade pequena: Sempre estamos bem informados sobre tudo que acontece no lugar.
Cheguei à padaria e cumprimentei os presentes. Não havia sequer sentado, e a atendente já veio com o comentário:
- Acabou o sossego em nossa cidade!
Sabia que precisava dar uma resposta e, apesar de não estar curioso a respeito, por pura educação, perguntei:
- Por quê?
- Não soube? – Responde a atendente.
Normalmente, de manhã, não estou com muita paciência. Não tenho o menor interesse em saber o porquê de ter acabado o sossego da cidade, mas, novamente por educação, prossegui a conversa:
- Não. Acabei de acordar!
- Temos um bandido em nossa cidade! – Conta a atendente com um tom de voz apavorado.
Sem entender o que ela queria dizer, e ainda sendo educado, perguntei:
- Que bandido?
Imediatamente um senhor, já conhecido meu, se adiantou e falou:
- Sabe aquele professor que matou um colega seu de São Paulo? Ele está em nossa cidade!
- A policia esteve cedo fazendo perguntas! – Completou a atendente.
Neste momento meu sangue gelou.
– Eles me acharam! Devem ter grampeado o telefone da Mari. Preciso urgentemente sair desta cidade!

***

Foram enviados quinhentos Lulu Amelus para trabalhar nas aralis.
Foram os primeiros. Os trabalhadores Anunnakis já estavam a ponto de se amotinar novamente se os "cabeças preta", que é como chamam os Lulus, não fossem enviados imediatamente para as minas. Foi um motim dos mineiros, o estopim para criação dos trabalhadores primitivos e, para o Chanceler não é nada interessante outro motim. Devido a isso, envia os Trabalhadores Primitivos, mesmo antes do prazo estipulado.
Enki, o gerentes das aralis, manda preparar um alojamento confortável para os novos, ao lado do alojamento dos Anunnakis. Isto gerou indignação e comentários maldosos por parte de alguns Anunnakis, eles vêem os Lulus como animais, transformados em ferramenta de trabalho e, na visão deles, não devem ser tratados como um Anunnaki, sequer devem ficar próximos a eles.
Com os novos trabalhadores, realmente o trabalho dos Anunnakis diminuiu em muito. Os Lulu Amelus receberam treinamento para trabalhar nas aralis e passaram a desempenhar seu trabalho com excelência. O único que viu seu trabalho aumentar foi Enki.
Agora ele precisava estar sempre muito atento, pois os Anunnakis, sempre que tinham oportunidade, maltratavam e humilhavam os Lulu Amelus. Enki é rigoroso com o castigo para quem age desta forma, porém, só pode castigar quando vê o ato, porque nenhum dos Anunnakis delata os colegas agressores, e os Lulus, por sua natureza pacifica e sabendo que os Anunnakis seriam castigados, também não entregam o seu agressor.
À noite, como de costume, Enki está em seu escritório cuidando da parte burocrática das aralis, é um trabalho chato e maçante, mas alguém precisa fazê-lo. Como os Lulu Amelus dormem neste período, Enki reservava este turno para cuidar da papelada. Tranca o alojamento dos Lulus e ficava tranqüilo, sabendo que estarão bem, e que não precisa vigiar.
Esta noite, porém, ouve um alvoroço do lado de fora de seu escritório. Interrompe seu trabalho, e vai verificar. Ao Abrir a porta de seu escritório, e se depara com um grupo que puxa a força alguém para fora do alojamento dos Lulus, que está com as portas abertas. Outro grupo sai em socorro ao que está sendo arrastado, mas é alvejado. Alguns tombam mortos, outros recuaram.
Enki corre em direção do alvoroço, e ao chegar perto constata que dois Lulus estão mortos e, um grupo de Anunnakis segura uma fêmea dos trabalhadores primitivos. Ela está nua.
- O que está acontecendo aqui? - Grita Enki.
- Fique fora disso. - Responde Ereshkigal, que é o segundo no comando das Minas subordinado apenas à Enki.
- Soltem esta Lulu, imediatamente! – Grita novamente Enki
- Vá para seu escritório e faça de conta que não viu nada, será melhor para você! - Responde Ereshkigal.
- Você está me desafiando, Ereshkigal. – Fala Enki com tom desafiador - Vai pagar por isso, e caro!
Enki é muito respeitado e temido pelos mineradores. Seu pai foi um herói em Nibiru, seu irmão é o Chanceler em Nippur e o Rei Anu é seu amigo pessoal, tudo isso, alem do fato que ele é um respeitado cientista, função considerada fundamental em Nibiru, isso, após a grande crise. Graças a este currículo, estava conseguindo manter este barril de pólvora que são as aralis. Pelo menos, por enquanto.
- Você é um tolo Enki – gritou Ereshkigal -, defendendo estes animais. Nós os criamos, eles são nossos, estão aqui para nos servir e nos divertir.
- São seres vivos, inteligentes, e possuem sentimentos como nós!
- Não temos tempo para discutir com Você. - Ereshkigal virou-se para dois Anunnakis ao seu lado e ordenou - Prendam Enki na jaula. - A jaula é o lugar onde Enki prende os Anunnakis que maltratam os Lulus.
Os dois se entreolharam em duvida se deviam ou não executar a ordem, afinal, se trata de Enki.
- Vão agora. - Insistiu Ereshkigal - Eu assumo a responsabilidade!
Os Anunnakis foram em direção a Enki com certo receio. Enki ainda os ameaçou, mas, neste momento, a insurreição de Ereshkigal falou mais alto. Eles prenderam Enki, que ainda tentou se defender, porém, os rebelados estavam armados e o ameaçaram, não vendo opção, acabou se entregando.
Já dentro da jaula, ainda pôde ouvir os gritos e pedidos de socorro da jovem Lulu que os Anunnakis estavam levando. Enki ainda gritou, tentando em vão, conte-los de cometer este barbarismo.
O dia já estava clareando quando os mesmos Anunnakis que o prenderam, a pedido de Ereshkigal, vieram buscá-lo.
- Venha conosco Enki. - Fala um dos Anunnakis puxando Enki para fora da jaula.
Eles o algemam e o levam para fora do prédio, lá Ereshkigal o aguarda. Enki olha em direção ao alojamento dos Lulus e vê, sentada no chão, encostada na parede do alojamento a jovem Lulu da noite passada. Ela apresenta muitos machucados e está chorando, nitidamente foi violentada. A cena revoltou mais ainda Enki, que falou a Ereshkigal:
- Você vai se arrepender Ereshkigal. Você e estes seus comparsas irão apodrecer no presídio...
Neste momento recebeu uma bofetada no rosto que o fez cair, sentiu o sangue escorrendo pelo seu nariz.
- Cale a boca, seu filhinho de papai! - Gritou Ereshkigal. – Vamos, tragam-no!
Eles o levaram com um veiculo de transporte para um cânion próximo. A uns quarenta metros abaixo, passa um caudaloso rio. Posicionaram Enki em pé à borda do cânion. Ereshkigal vira-se para os outros dois e fala:
- Vão embora. Vocês não podem testemunhar o que não presenciaram. - Ao que os dois saem sem fazer perguntas, já sabem o que acontecerá em seguida.
- Porque está fazendo isso Ereshkigal? - Perguntou Enki.
- Por quê? Você ainda pergunta? - Responde Ereshkigal com ódio, dando mais um soco em Enki - Eu seria o Gerente das minas, estava tudo acertado, o cargo era meu. Mas não, o filho do grande Eni se candidatou para a vaga, e a vaga se torna dele, nem precisa fazer força. Você vive na sombra de seu pai, nunca teve competência, e roubou o lugar que era meu por direito.
- E você tem competência Ereshkigal? Violentar jovens Lulus, isso é competência?
- Os trabalhadores precisam de diversão, você sempre negou isso a eles, e eu não. Agora estão ao meu lado! - Disse Ereshkigal rindo - Mas chega de conversa, estou pegando meu cargo novamente, se não por bem, então... por mal.
Ereshkigal saca uma arma, aponta para Enki e atira. Com o impacto, Enki arqueia seu corpo para traz, e cai. O corpo de Enki despenca os quarenta metros do cânion, até a água na qual, bate em cheio com um forte impacto. Ereshkigal ouve o barulho na água como uma canção em homenagem a sua vitória. Vai à borda do precipício e olha tentando encontrar Enki, mas ele desapareceu no nas águas bravias do rio. Crente que ele não poderia ter resistido à queda, fala para si mesmo:
- Foi mais fácil que pensei, nem precisei jogá-lo. Agora a água gelada e os animais cuidam do resto!
- Quando acordei estava aqui, nesta mesma praia, machucado, mas vivo, o tiro me atingiu de raspão. – Prossegue Enki com sua história - Depois de me recuperar, tentei voltar para a cidade por terra, mas não consegui suportar o gelo e o frio. Em um impulso terrível para voltar e denunciar Ereshkigal, construí uma jangada improvisada com galhos e tentei atravessar o mar, nem me dei conta dos perigos desta atitude. Já estava a uns 100 metros quando meu barco foi atacado por baixo e tombou. Não vi o que era, mas devia ser um dos grandes animais marinhos que habitam estas águas. Por muita sorte, conseguiu alcançar a margem, mas, mortalmente ferido. Procurando proteção consegui, a grande custo, arrastar-me até a caverna onde, certamente morreria, se vocês não tivessem me encontrado.
Ao terminar sua história, reparou que Ninsun e Gil o olhavam atentamente, não esboçaram nenhuma reação, só olhavam impressionados.