CAPÍTULO 8

Ninsun conseguiu vencer o primeiro desafio.
As enormes ondas que castigavam a praia, próxima a cidade, foram vencidas, mas, uma nave patrulha a procurava. Se a encontrarem sabe que não terá perdão. A nave muda de direção e, direciona o facho de luz em sua direção. A luz é muito forte, tanto que, Ninsun fica momentaneamente cega, quando sua visão volta, não vê mais a nave, mas ela não havia desistido da busca.
Uma enorme massa de água se ergue bem no momento em que o facho de luz a focalizou, formando um muro entre Ninsun e a nave de busca. Quando a muralha de água baixou, ela pode ver a nave seguindo a praia e se distanciando, estava salva, pelo menos, por enquanto.

***

- Senhor. Procuramos em todas as direções - falou um dos guardas da cidade ao dono de Ninsun -, nem um sinal de sua Lulu ou de qualquer tentativa de fuga. Tem certeza de que não está em algum cômodo da casa?
- Tenho certeza absoluta, ela é proibida de entrar na minha casa. – Respondeu. – Ela levou suas roupas, certamente fugiu.
- Se ela fugiu, foi sozinha, pois não temos mais nenhuma denuncia de fuga. Com certeza algum animal selvagem, se não a matou, a irá matar. Talvez, ao amanhecer, encontremos suas coisas, ou quem sabe, pedaços de seu corpo. No momento não podemos fazer mais nada. – O guarda já estava saindo, quando virou-se e, completou – Aconselho que compre outra escrava, porque esta, certamente não sobreviverá!

***

O dia amanheceu e Ninsun ainda não chegara à outra margem.
A tempestade parou, havia agora um belo sol no céu azul de Nippur. Ninsun estava tão contente com este sol que a estava aquecendo e secando que, esqueceu dos perigos do mar calmo. Já avistava ao longe a costa, consultou seu aparelho de localização e sorriu, - estava correta, era a outra margem, era seu destino. Pegou o pequeno remo e começou a remar em direção à praia, seu braço doía pelo esforço da noite anterior, mas seu objetivo estava próximo.
Começou a pensar em seu filho, não havia nascido ainda nenhuma criança hibrida, Lulu e Anunnaki.
– Será que ele será perfeito? Será que saberá falar? Será que não carregará consigo alguma doença séria? Será que valerá a pena o risco?
- Sim, valerá o risco! - Falou para si mesma acariciando sua barriga - Ele é meu filho, isso, por si só, já vale o risco! – Concluiu.
Por apelo popular, foi aprovada uma lei, que permite a qualquer Anunnaki comprar seus próprios escravos Lulus, que passaram a não ser mais de propriedade exclusiva do Estado. Isto tornou ainda pior a situação, que já não era boa, dos Lulus. Não existe uma lei que os defenda e seus donos podem fazer o que quiser com eles, são suas propriedades, isso significa que, podem ser maltratados sem que ninguém, nem mesmo o governo intervenha. Graças a isso, muitos incidentes começaram a acontecer.
Tornou-se prática comum o estupro de jovens Lulus por parte dos Anunnakis. Mas, aconteceu algo que ninguém esperava. Algo que era, para os Anunnakis, inconcebível: Algumas Lulus engravidaram dos seus senhores Anunnakis. Pensava-se que isso seria impossível, já que os Lulus são considerados seres inferiores aos Anunnakis, mas sim, aconteceu.
Para salvar o puro sangue Anunnaki de uma miscigenação, o Chanceler Enlil, foi então obrigado a promulgar uma lei que obriga o agressor, e futuro pai, a levar imediatamente a Lulu grávida para realização de um aborto, tudo para não macular a pura raça dos Anunnakis.
Caso o bebê viesse a nascer, o pai seria identificado através de exame de DNA e, seria severamente punido por permitir a degeneração da raça Anunnaki, e o bebê seria morto. Os médicos especializados em tratar Lulus começaram a ter muito trabalho para a realização dos abortos em jovens violentadas, muitas choravam, por não querer seu filho morto, mesmo que este seja fruto de um estupro. Outras, no entanto, estavam tão traumatizadas com a violência que não apresentavam reação nenhuma, como se estivessem em transe. Não raro, a mesma Lulu ser trazida pelo seu dono para abortar dezenas de vezes.
- Isso não vai acontecer com meu filho, ninguém irá matá-lo! - Pensou Ninsun sozinha, remando seu barco inflável.
Seus pensamentos, porém, foram dispersos pelo som de algo saindo ferozmente da água, e, era algo grande.
O susto de Ninsun foi tamanho que ela caiu de costas no chão do barco. Aos poucos foi criando coragem, e erguendo lentamente a cabeça, para ver o que saíu da água. Quando de repente, algo saltou novamente, agora atrás dela, e ao lado e a frente, eram vários e saltavam freneticamente, chacoalhando violentamente o pequeno barco. O terror tomou conta dela quando reconheceu o que a rodeava.
Eram grandes baleias carnívoras.
Um grupo de baleias carnívoras cercava seu barco, tinha certeza do que eram, pois o biólogo Anzu já às havia catalogado e filmado, Ninsun estudou sobre estes seres na escola, era pratica comum mostrar os ferozes animais de Nippur nas escolas, isto intimidaria futuras fugas. Ela sabia também que estavam em posição de caça e, a qualquer momento uma baleia bateria com a cabeça no fundo do barco, jogando-a longe, diretamente para a boca de outra, depois a rasgariam em pedaços em um sádico cabo de guerra. Não havia como escapar, seu ataque era... sempre fatal.
Mas, parecia que o destino a queria viva afinal.
Ninsun estava encolhida no chão do barco, esperando pelo ataque fatal das baleias, quando de repente, surge algo ainda maior.
A investida contra uma das baleias foi tão violenta que os dois, presa e caçador ficaram suspensos sobre a água, por alguns segundos, eles pareceram planar, para depois cair violentamente no mar.
A queda cria uma onda enorme que balança perigosamente o barco de Ninsun, despejando sobre ela, uma grande quantidade de água. – É um megalodon! – Ela tem certeza.
Ela também havia estudado a forma de ataque destes gigantes tubarões devoradores de baleias. Sempre atacam vindos por baixo, de forma a não serem visto, um ataque surpresa. A primeira mordida é sempre perto da cauda da baleia, isso faz com que a vitima perca a mobilidade, virando presa fácil. Depois ele volta para as profundezas e aguarda, pacientemente, por sua morte através da perca de todo seu sangue. É um método engenhoso, que preserva a sua integridade, já que não precisa entrar em combate com um grupo de baleias iradas.
No mar surge uma enorme mancha vermelha, a baleia atacada está se esvaindo. As outras baleias, neste momento esquecem o ataque ao barco de Ninsun e tomam posição de defesa a volta da amiga machucada. Ninsun está petrificada com a aterradora visão do embate entre seres de mais de 20 metros de comprimento, perigosamente próximo ao seu barco inflável. Felizmente, seu instinto de sobrevivência fala mais alto, e a tira do transe. É a sua chance, provavelmente a única.
Com este pensamento, ela rema, desesperadamente, em direção a margem. Depois de muito esforço, e graças à alta dose de adrenalina que corre, neste momento, em suas veias, ela alcança seu objetivo. Com o restante de suas forças, arrasta seu barco para fora da água.
- Preciso encontrar um esconderijo. - Mas seu corpo já não obedece, e ela cai desacordada na areia, completamente exausta e... extremamente vulnerável.