CAPÍTULO 10

Preciso levantar dinheiro e sumir, senão, serei o próximo.
Com minha conta corrente e meu dinheiro bloqueados, a única opção que via no momento, era conseguir um adiantamento.
Fui falar com o reitor da faculdade onde lecionava. Precisava convencê-lo a adiantar meu salário, em dinheiro e ainda, se possível, levantar um empréstimo. Certamente, se contasse com o que me envolvi, teria facilmente o dinheiro, ele é um grande preservador de relíquias e um grande investidor em museus e expedições arqueológicas, mas não poderia envolvê-lo, sabendo dos riscos que ele correria se soubesse desta história.
Consegui levantar com o reitor o dinheiro do salário a que tinha direito e ainda um adiantamento equivalente a mais um mês. A pior parte foi agüentar o sermão do reitor, sobre como eu deveria aprender a gerenciar melhor meu dinheiro para ter uma situação econômica mais saudável.
Além de desnecessário, já que sempre mantive controladas minhas finanças, ainda, estava com pressa, havia o risco me procurarem em meu local de trabalho e, aqueles conselhos, inúteis, apesar da boa intenção, estavam fazendo com que ficasse mais tempo que o planejado na faculdade.

***

Os dois nunca ficavam muito tempo em um só lugar.
Não é fácil sempre estar mudando, mas é perigoso ficar parados, Ninsun sabe bem disso. O planeta é muito frio, e nem sempre encontravam uma caverna para ficar, porém, ela desenvolveu uma técnica para construir um abrigo com a neve. Por incrível que pareça, ficar abaixo da neve é menos frio que do lado de fora. Também aprendeu a fazer roupas da pele de animais. Ninsun nunca teria coragem de abater um animal, os dois viviam basicamente da coleta, mas os kerabulus caçavam e preparavam as peles com que presenteavam Ninsun.
Todo o conhecimento acumulado por Ninsun era passado para Gil. Ela nem acreditava em como conseguiu aprender tudo isso e a viver sozinha, ainda mais na situação em que estava. Grávida e sendo caçada, nunca imaginou ter forças para tanto, mas ia ser mãe, e precisava proteger sua prole. Isso lhe deu forças acima do que jamais imaginou possuir.
A aventura de ser mãe a fez superar a si própria.
Apesar de tudo que passou, Ninsun estava grata. Certamente, sua condição ainda era muito melhor que as dos outros Lulus. Na cidade, sua venda fora liberada pelo governo a quem pudesse pagar, e agora estão à mercê da bondade de seus donos, bondade que, de fato, não existe.
Os que estavam sob a batuta do governo, trabalhavam exaustivamente nas fábricas de armas, que segundo o Chanceler, seriam enviadas à Nibiru para proteção do planeta. Para os próprios Anunnakis, isso não fazia sentido, já que o planeta todo estava sob o comando de um único rei, o Rei Anu e, há muitos anos não havia guerras, mas como não precisavam trabalhar para criação das armas, não questionavam. Outros Lulus do governo trabalham nos campos, plantando e criando animais para alimentar os Anunnakis.
Em pior situação estão os que trabalham nas minas, chamadas pelos Anunnakis de aralis, lá sim as condições são terríveis. Para os Lulus ser enviado para as aralis é uma sentença de morte, e da pior maneira possível, tanto que, as minas são chamadas pelos Lulus de “inferno”.
Ereshkigal, que assumiu o controle das aralis depois da morte de Enki, o irmão do Chanceler Enlil, comanda os Lulus com mãos de ferro. O Chanceler, e todos mais, fazem vista grossa quando o assunto é o tratamento dos Lulus nas minas, mas todos estão cientes de tudo o que se passa. A maioria dos casos de aborto forçado infligido às jovens Lulus é das que estão nas minas, muitas inclusive já morreram de tantos abortos que foram obrigadas a fazer. Para os machos, restava a morte por exaustão ou espancamento.
Porém, a última ordem imposta por Ereshkigal nas aralis, mereceu a intervenção do Chanceler, mas não por piedade aos Lulus, mas sim, por questões de custo.
Um túnel desmoronou soterrando três pobres Lulus. Ereshkigal não autorizou que a extração parasse para que os Lulus fossem socorridos, mesmo estando vivos. Sabia-se disso, porque era possível ouvi-los implorando por socorro.
Durante a noite, o grupo de Lulus, abriu mão de seu descanso para salvar os três companheiros. Resgataram dois corpos dos que não resistiram, mas um foi retirado com vida. Ao ver suas ordens sendo contrariadas, Ereshkigal decretou que, se para salvar seus amigos os Lulus poderiam ficar sem dormir, poderiam muito bem trabalhar todas as vinte e quatro horas do dia de Nippur, sem descanso. Os Anunnakis não precisam dormir todas as noites de Nippur, já que sua estrutura biológica está adaptada para seu planeta natal, Nibiru, já os Lulus, precisam de descanso diário.
Foi uma decisão insensata. Metade dos Lulus que estavam nas minas morreu de exaustão.
Todos sabiam que os Lulus deviam ter um período de descanso. Os cientistas que os criaram, deixaram um manual claro de como deveriam ser tratados, alimentados e o período de descanso, bem como, qual seria a idade útil, em que poderiam ser submetidos ao trabalho. Infelizmente, para os Lulus, tudo isto estava sendo ignorado e com o aval do Chanceler. Mas desta vez ele resolveu intervir, não pelos Lulus, mas pelo prejuízo que Ereshkigal causou com sua atitude.
Apesar dos Lulus terem sido criados com capacidade de reprodução, o que faria seu custo de produção ser praticamente zero, eles raramente o faziam. Isso para evitar que seus filhos tenham o mesmo destino desgraçado. Quando uma Lulu fica grávida, sem ser de um Anunnaki, é realmente porque houve um acidente, que os Lulus evitavam ao máximo. Isso estava tornando os nascimentos raros, e matar tantos de exaustão e de uma só vez, é irracional.
O Chanceler enviou uma ordem à Ereshkigal, exigindo descanso para os trabalhadores Lulus, bem como alimentação, já que, todos sabem, os Lulus das minas sofrem de forte desnutrição, o que reduz drasticamente sua vida útil. Ereshkigal protestou.
– Estes cabeças pretas – que era a maneira pejorativa como alguns Anunnakis os chamavam – foram criados por nós, para nos servir, e principalmente, para trabalhar nas aralis. São nossa propriedade e podemos fazer o que quisermos com eles!
Mas ordem do Chanceler era ordem do Chanceler, e Ereshkigal, assim como todos os outros, sabia que não era saudável descumpri-las e, apesar de não ter gostado, obedeceu.
Mas nem todos os Anunnakis pensavam da mesma forma que Ereshkigal sobre os Lulu Amelus...