CAPÍTULO 16

Durante muitos anos cultivei, orgulhosamente, minhas madeixas.
Sempre me gabava entre meus colegas por não ser calvo – a maioria deles era. Além disso, conservava uma barba vistosa. Talvez por resquícios inconscientes e primitivos de nossos antepassados, mas eu me sentia bem com esta barba. Ela me fazia sentir imponente, másculo, bonito. Apesar de que esta opinião não era compartilhada pelas minhas amigas do sexo oposto que, dizem preferir homens sem barba. Na verdade, às vezes até me chamam de Neandertal.
Não foi fácil para mim. De posse de um aparelho de barbear e um sabonete, que encontrei no vestiário, parti para a raspagem minha tão querida pelagem. Ao olhar no espelho não era mais eu. Não estava me reconhecendo e esperava que ninguém me reconhecesse também.
No retrato que os jornais estão exibindo, meu rosto quase não é visível, sendo coberto por pelos. Agora, com cabelo e barba raspados, esperava passar despercebido, e conseguir fugir para longe, para um lugar onde poderia terminar a tradução das relíquias e, manter minha vida a salvo.

***

- Fique aqui fora Gil! – Falou Ninsun entrando na caverna.
Ela carrega consigo uma lança com ponta de sílex bastante afiada. Foi presente dos kerabulus, juntamente com uma faca do mesmo material. Ela nunca usara a lança, mas a usaria se fosse preciso, tudo para defender seu filho Gilgamesh. Em todo este tempo vivendo sozinha com seu filho, perdeu o medo dos animais selvagens, sabe que não se pode subestimá-los, mas sabe também que os animais os temem da mesma forma.
Sorrateiramente ela foi entrando na caverna, sua lança apontada para frente. O escuro a cegou precisava acostumar sua vista. Apertou seus olhos, tentando ver algo, e foi caminhando vagarosa e cuidadosamente para dentro da caverna. Aos poucos seus olhos foram se acostumando com o escuro, olhou ao seu entorno, foi identificando algumas manchas na parede, o resto de uma fogueira que ela mesma acendera há anos, pinturas feitas por Gil...
Mas, ao olhar em um canto mais escuro da caverna, ela viu algo que jamais imaginara ver, ao menos... não ali. A principio não acreditou, achou que o escuro da caverna estivesse lhe pregando peças. Apertou mais seus olhos, e deu um passo a frente.
A coisa se mexeu!
O susto foi tão grande que ela caiu para traz, sentada no chão.
Foi rastejando de costas na tentativa de escapar, ainda olhou novamente, na esperança de que aquela imagem fosse fruto de sua imaginação, mas não era. Com suas pupilas dilatadas pelo medo, ela pode ver claramente e ter a certeza do que via. Ninsun se vira para porta da caverna, levanta-se e sai correndo, deixa para traz até a sua lança, enquanto grita apavorada:
- FUJA GIL. DEPRESSA FUJA!