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CONTINUAÇÃO...
AS TÁBUAS DE NIPPUR – ÊXODO
Na continuação desta espetacular aventura, o professor Prawdanski, capturado por um grupo que quer evitar a todo custo à divulgação do conteúdo das tábuas de argila, é enviado para uma prisão militar de segurança máxima onde é obrigado a terminar as traduções em troca da postergação de sua sentença de morte.
Para escapar, consegue ajuda de alguém totalmente improvável que o lança em uma nova busca, agora, pelo conteúdo das primeiras tábuas, trazidas pela missão lunar e que contém informações tão devastadoras a ponto de causar o assassinato de todos os envolvidos em sua tradução e a destruição das tábuas originais.
Enquanto parte para esta nova e perigosa jornada, o professor Prawdanski vai disponibilizando o que já traduziu dos decalques enquanto esteve preso. Nas traduções, Gilgamesh consegue embarcar na espaçonave para Nibiru atrás da mãe Anunnaki criadora dos Lulus, Ninsun. Porém, o que encontra é muito maior do que sequer poderia imaginar, a ponto de alterar o rumo da história e dar o pontapé inicial para a aventura humana sobre a terra.
Neste segundo livro o leitor continuará a ser chamado para fazer uma reflexão sobre nossa existência, bem como, terá acesso de forma clara e em formato de romance às respostas para questões primordiais que nos fazem ser o que somos e traça um paralelo entre nosso passado e nosso presente demonstrando que muito do que somos hoje pode ter sido definido por uma necessidade antiga, necessidade esta, que subjuga à nossa própria vontade.
EPILOGO
Gosto muito de natureza, mas, já estou sentindo falta de um banho quente e de comida cozida. Durante estes dias em que estou andando, escondido, no meio da mata, por várias vezes ouvi o helicóptero de meus perseguidores sobrevoando baixo. Nesta hora fiz um comparativo com a história que estou traduzindo. Também para mim, a proteção é a copa das árvores.
Liguei meu NetBook que ainda mantém um pouco de carga e escrevi mais um pouco, mas, como não tenho internet, não me vale muito. Se tivesse acesso a Internet, conseguiria um mapa de onde estou e, poderia saber, mais ou menos, quanto tempo ainda levaria para chegar à civilização.
Mais uma noite se aproxima, e novamente, preparo um lugar para pernoitar. Como andar pela mata fechada e úmida cansa muito, não estou tendo problemas para dormir. Hoje não foi diferente, tão logo me ajeitei, comecei a pegar no sono.
Já com os olhos semi-cerrados, vi algo vermelho se esquivando entre as árvores. Abri os olhos e sentei em meu improvisado abrigo de folhas e galhos, olhando, atentamente em todas as direções. Porém, não vi nada fora do comum.
- Deve ser minha imaginação! – Concluí.
Após convencer-me de que não era nada, deito novamente e, procurando uma posição mais confortável, me viro para o outro lado, ainda com os olhos abertos.
Levo um enorme susto.
A mais ou menos um metro de mim, dois grandes olhos vermelhos me observam de forma assustadora.
Rapidamente levanto e tento correr, mas, o ser de olhos vermelhos, pula em minhas costas e me derruba. De repente, o mundo todo fica em câmera lenta. Me sentia como se estivesse dentro de uma gelatina, todos os meus movimentos pareciam pesados. Nem gritar conseguia, estava difícil até para respirar. Um medo terrível tomou conta de mim, não sei por que, mas, neste momento, tinha a certeza de que iria morrer. Mesmo sem ter medo da morte, neste momento, ela parecia um pesadelo, parecia macabra.
Uma luz muito forte clareou tudo ao redor, não conseguia entender o que estava acontecendo. Sentia uma movimentação, mas, não sabia o que era. Meu corpo começou a subir, estava vencendo a gravidade sem esforço, passando pela copa das árvores, pensei que havia morrido, e que, minha alma estava indo para o céu. Mas, o céu estava estranho, emitia um forte ruído, ruído este, que ficava cada vez mais alto, mais próximo, as luzes também estavam mais próximas e fortes.
Quando dei por mim, estava algemado dentro de um helicóptero, juntamente com mais quatro homens, todos vestindo roupas pretas, mas apenas um, vestindo terno. Por um bom tempo, não falaram nada. Aproveitei este tempo para tentar voltar a si, e entender o que estava acontecendo. Quando cheguei a uma conclusão, pensei que seria melhor não tê-la encontrado:
Fui capturado!
Olhei para os lados procurando pela minha mochila, com a tábua de argila e os decalques. Encontrei-a sobre uma grande jaula, que estava coberta com um pano preto. Ao ver meu olhar para mochila, um dos soldados ergueu discretamente sua arma, lembrando-me que seria potencialmente fatal tentar qualquer coisa. Finalmente o silencio foi quebrado pelo que estava de terno, que acendeu um cigarro e falou:
- Tática errada, professor Prawdanski. – Falou em um português enrolado. Possuía um sotaque que não consegui reconhecer, mas, certamente não é brasileiro – A equipe que estava lhe perseguindo é formada por militares, e a mata, é a sua casa. Achou mesmo que poderia escapar para sempre? Sua aventura – deu uma longa e prazerosa tragada, e concluiu -, finalmente acabou!
CAPÍTULO 74
É um trabalho chato, pois nunca acontece nada. Desde as ameaças em enviar todos os familiares dos Lulus que desobedecerem para as aralis, as fugas caíram à zero. Mesmo assim, a vigilância permaneceu. Ao longe, um grupo de animais bípedes se aproxima do rio para beber água, são os kerabulus. Os guardas observam, olhando para o grupo despretensiosamente, simplesmente, por não ter nada melhor para fazer.
Seu marasmo, no entanto, é interrompido quando um kerabulu diferente dos demais se aproxima da água. Um dos guardas, o primeiro a perceber, chama o segundo e mostra a estranha criatura. Com a ajuda de um binóculo, eles observam atentamente o animal, que, se inclina e também bebe água do riacho. Diante do estranho kerabulu, os guarda comentam:
- Viu que kerabulu estranho?
- Sim, ele é pelado. Parece um Anunnaki!
- Não seja burro. Onde já se viu comparar um kerabulu a um Anunnaki. Ele não é branco como nós!
- Sim, isso eu vi, mas, você reparou no seu tamanho, é bem maior que os outros!
- Tenho uma idéia – falou animadamente um dos guardas -, para passar o tempo, vamos criar uma armadilha e capturá-lo?
- Boa idéia, eu sei fazer uma armadilha muito boa. Aprendi com meu pai!
Os dois se divertem com a idéia, agora não haveria mais tédio, poderiam dedicar seu tempo em capturar o kerabulu gigante, afinal, ele é diferente e, no conceito Anunnaki, o que é diferente não é bom.
O vidro se estilhaça com uma pancada.
Gilgamesh retira, cuidadosamente, os papeis que estavam no mural e os guarda na bolsa de couro que utiliza para carregar seus pertences. Tem muito cuidado com esta bolsa, pois fora fabricada pela sua mãe Ninsun.
- O que está fazendo Gilgamesh? – Pergunta Nebo.
- Guardando este documento. Já que vamos incendiar este local, pelo menos teremos uma prova de sua existência.
Em seguida, começou a despejar o combustível que os capangas de Kalkal trouxeram, encharcou bem, principalmente os corpos dos Anunnakis. Saíram do prédio, Nebo ainda deu uma volta pelas instalações para constatar que realmente estavam sós.
Quando Nebo deu um ok, Gilgamesh acendeu uma tocha, olhou uma última vez para o prédio, respirou fundo e, finalmente ateou fogo no que, um dia foi o jardim do EDEN, o paraíso para os Lulu Amelus. Os três ficaram olhando enquanto o fogo consumia o prédio. Um sentimento de perda, estranhamente, tomou conta de Lizi e Gilgamesh, era como se o seu próprio lar estivesse em chamas. Um lar, que jamais lhes pertenceu realmente.
O veiculo segue a toda velocidade. Gilgamesh está tenso, nunca havia viajado em um veiculo Anunnaki.
- Fique tranquilo, é seguro! – Fala Lizi, tentando acalmá-lo.
- Se está com medo agora, imagine então pegar uma espaçonave para encontrar Nammu! – Tirou um sarro Nebo.
- Eu vou sim! – Responde Gilgamesh - É o único jeito de conseguir descobrir o que preciso. Pare ali! – Aponta para umas arvores que formam uma grande sombra. – Tire tudo o que precisar o veiculo e livre-se dele, agora só a pé.
Por conselho de Gilgamesh, Nebo levou bastante agasalho, comida e remédios. Tinham decidido ir para as cavernas onde Gilgamesh e sua mãe viveram. Estava claro que, não estariam em segurança próximos a Eridu. Gilgamesh os guiaria pelo caminho que contorna o mar, caminho este que havia aprendido com os kerabulus. Era mais longo, porém mais seguro que atravessar o mar cheio de feras.
Iriam passar a noite neste local. Gilgamesh fez uma fogueira, enquanto Nebo livrava-se do veiculo, jogando-o no mar. Como os veículos Anunnakis são biológicos, em pouco tempo a água salgada se encarregará em decompor o veiculo, destruindo de vez as evidencias de que, passaram por ali.
Gilgamesh foi a uma nascente próxima e, retirou um pouco de barro. Modelou, e o deixou secar próximo à fogueira. À noite, ao redor da fogueira, Lizi já estava dormindo, precisava descansar para longa viagem. Nebo, porém, ficou acordado, dando dicas à Gilgamesh de como sobreviver nas espaçonaves.
- As espaçonaves foram projetadas para suportar a vida Anunnaki – falou Nebo -, será que você sobreviverá?
- Não sei – respondeu Gilgamesh -, mas é preciso. Os lulus dependem disso, tenho que encontrar Nammu.
- Fique próximo aos Anunnakis. Nos compartimentos de carga não há oxigênio, você morrerá em pouco tempo!
- Certo.
- Também a temperatura é controlada, porque no espaço é muito frio.
- Tudo bem.
- Este é o endereço da casa de Nammu. – Entregou um pedaço de papel à Gilgamesh -Peguei nos registros antes de sairmos. Nibiru todo é uma grande cidade, sem um endereço, você nunca a encontrará.
- Obrigado.
- As primeiras espaçonaves partem dentro de duas semanas, pelo calendário de Nippur. Dará tempo para você voltar?
- Eu iria lhes falar isso amanhã, mas já que você comentou... daqui eu volto, vocês vão sozinhos.
- Eu entendo e, quero que saiba, somos eternamente gratos por tudo que fez por nós.
- Resista Nebo. E cuide de sua família. Um dia vocês não precisarão mais esconder-se, e os Lulus serão livres. Eu prometo.
Nebo deu um sorriso forçado. Apesar de suas boas intenções, o que um hibrido sozinho poderia fazer para mudar a situação dos Lulus, mesmo que pudesse ficar invisível? Mesmo Nammu não teria poder para tanto. Para Nebo, Gilgamesh estava se arriscando a toa, mas decidiu não falar nada, não queria desmotivá-lo.
O dia clareou e eles se despediram. Gilgamesh entregou ao casal duas tábuas de argila. Em uma delas, havia um mapa de como chegar á caverna mais próxima. Era o local mais quente e, por isso melhor para o nascimento de seu filho. Na outra tábua, estava escrito, em letras cuneiformes:
“Gilgamesh”
- Caso encontrem com os kerabulus, entreguem esta tábua a eles. – Falou Gilgamesh - Eles não sabem ler, mas, irão reconhecer meu nome e, os ajudarão. Eles são seres bons. Quem sabe encontram meu irmão. Certamente irão reconhecê-lo.
A escrita cuneiforme é mais fácil para escrever em tábuas de argila. Havia aprendido com sua mãe, que a adaptou a partir da escrita Anunnaki. Toda alfabetização de Gilgamesh foi utilizando estas tábuas. Nelas também, sua mãe escreveu um diário, desde o momento da sua fuga, até a sua morte. Ele avisou ao casal que encontrariam estas tábuas de argila espalhadas pelas cavernas de Nippur por onde sua mãe e ele passaram.
- Mantenham-se agasalhados – fala para o casal -, principalmente você Nebo. Daqui para frente é muito frio, e logo será inverno. Procurem andar sempre com algo acima de vocês, árvores, pedras, qualquer coisa, os Anunnakis sempre sobrevoam a região e nunca vem por baixo. Sempre que acenderem uma fogueira, que seja em um lugar coberto. Sempre façam fogueiras a noite, afasta os animais selvagens, mas, quando não precisarem mais dela, apaguem bem para o fogo não se espalhar pela floresta.
A água, daqui em diante, é boa para o consumo, já não tem a poluição da cidade. Comam somente as plantas e frutos descritos como próprios para consumo neste livro – Gilgamesh deu-lhes o livro da botânica Ninsar, livro que ajudou sua mãe após a fuga -, existem muitas plantas que são venenosas, apesar de não demonstrarem. Muito cuidado ao nadar nos rios, existem predadores perigosos, no mar então, só no raso e, com muita cautela.
- Tudo bem Gilgamesh – fala Nebo -, você já repetiu isso inúmeras vezes.
- Ele está preocupado conosco. – Interrompe Lizi - Obrigado Gilgamesh, nós devemos muito a você. Se cuide em sua viagem que, certamente, será mais perigosa que a nossa.
Lizi lhe deu um demorado abraço e um beijo. Nebo também lhe abraçou. Desejaram-se boa sorte, lagrimas surgiram no rosto de todos, afinal, poderiam nunca mais se encontrar novamente.
- Cuidem bem deste bebê – fala Gilgamesh passando a mão na barriga de Lizi -, digam a ele, que um dia, não precisará mais se esconder. Ele será livre...
- Gilgamesh – fala Lizi -, quero que leve isso e, quando encontrar Nammu, entregue a ela. – Lizi lhe entregou um cristal de dados – Nós havíamos escondido uma cópia dos arquivos que copiamos do Chanceler. Com você, estará mais segura e terá mais utilidade do que se continuar conosco. Precisa impedir que isso aconteça Gilgamesh, senão, sua busca não terá serventia alguma.
Gilgamesh assentiu com a cabeça, mas não falou nada. Não precisava, algo dizia a Lizi, que devia confiar em sua capacidade.
Saíram para lados opostos, o casal contornando o mar, rumo as cavernas, rumo a um lugar onde possam ter seu filho em paz, e começar uma nova vida. Gilgamesh seguiu sentido ao espaço-porto, onde pretende entrar, sorrateiramente, na primeira espaçonave, rumo à Nibiru, rumo ao seu destino.
CAPÍTULO 73
- Doutora Nammu – fala o Reitor -, sei que já conhece o doutor Ninhursag. Agora ele é o novo coordenador do curso de Engenharia Genética!
- Como vai Nammu? – Perguntou Ninhursag, arrogantemente.
De todas as coisa ruins que já aconteceram na vida de Nammu, boa parte delas foi graças a ele, inclusive foi a causa, ainda que indireta, por ter aceitado desenvolver o projeto dos trabalhadores primitivos.
No local e hora marcados, Nammu se apresenta.
Está ansiosa, não imagina o porquê do Chanceler convidá-la para uma visita as aralis, mas também esta contente, pois finalmente terá a oportunidade em conhecer a verdadeira razão que os trouxe para este gelado planeta.
Em frente à sede temporária do Governo, está parado o veiculo que os levará. Ao seu lado, um grupo da guarda pessoal do Chanceler também espera para embarcar. Finalmente o Chanceler sai do prédio, seguido por seu assessor, vem diretamente em direção a Nammu e efusivamente a cumprimenta.
- Obrigado por atender ao meu pedido, doutora! – Na verdade, foi uma ordem - Acredito que esteja curiosa?
- Realmente estou tentando imaginar o motivo deste convite.
- Temos um problema para resolver nas minas e preciso de um parecer técnico seu. Por favor, vamos entrando! – Falou educadamente, apontando para porta do veiculo.
Todos entram e se acomodam. Imediatamente o veiculo levanta vôo rumo às aralis.
Do alto Nammu pode observar quão primitivo e belo, é o planeta. Uma imensidão verde, nenhuma casa, nenhum prédio, nenhuma fábrica. Ela pensa em seu planeta natal, que também já fora um dia assim e que hoje, para ver vegetação, só em alguns parques. Animais, os que ainda resistem, só em zoológicos. Aqui ela observa manadas gigantes migrando despreocupadamente, sem rumo, sem pressa...
O frio fica mais intenso, não dentro do veículo, mas fora. Ela sabe disso porque começam a surgir mais e mais pontos de gelo na paisagem. Ao longe já pode observar um enorme buraco, uma ferida aberta no solo de Nippur, ninguém precisou falar, ela sabe que ali ficam as minas. Pensou consigo mesmo se seu povo não merecia realmente sua pena, se não merecia ser extinto, pareciam um tumor, um câncer, destruindo tudo a sua volta, destruindo quem lhes abriga e sustenta, esquecendo que a destruição do planeta onde moram, significa, a sua própria destruição.
Já em terra, um grupo da guarda pessoal do Chanceler sai primeiro para um reconhecimento, após alguns instantes um deles volta e informa que é seguro sair. Todos levantam, vestem seus casacos e saem.
A temperatura externa é muito baixa, o vento chicoteia o corpo de Nammu que se encolhe, é muito mais frio do que na cidade, muito mais frio do que jamais sentira. Enki os aguarda, a expressão em sua face não é boa, ele os cumprimenta e os encaminha para o refeitório dos operários, que já estão esperando. Ouve-se um murmúrio enquanto entram, suas expressões também não são boas.
A comitiva do Chanceler avança entre as mesas, o Chanceler os cumprimenta com um característico sorriso político em seu rosto, mas o clima é tenso, dá para sentir no ar. O grupo chega à frente do refeitório, o Chanceler levanta seu braço como se fosse acenar para alguém e fala.
- Boa tarde meus amigos...
Neste instante o mundo desaba.
Ouve-se um enorme barulho de coisas quebrando, Enki puxa Nammu para trás de um balcão, a guarda pessoal do Chanceler entra em ação, os trabalhadores estão extremamente exaltados e querem a todo custo agarrar o Chanceler, ouvem-se gritos de pega, mata, não deixa escapar! A guarda pessoal tenta a todo custo protegê-lo, mas em vão, vários golpes o acertam. Nammu, atrás do balcão, está apavorada.
De repente ouve-se um disparo. Todos param.
Em pé, sobre o mesmo balcão que protege Nammu, está Enki, em pé, com uma arma na mão, ele grita:
- Parem com isso! Vocês são Anunnakis ou são animais. Nós o chamamos aqui para conversar com ele, e não para matá-lo!
- Mas veja quanto tempo ele levou para vir falar conosco. Ele está fazendo pouco caso de nós! – Gritou exaltado um dos trabalhadores.
- Mas agora ele está aqui! - Gritou Enki - Vamos dar a ele a chance de se explicar. Sentem todos!
O chanceler olha assustado de traz de sua guarda pessoal, está com a mão no rosto, onde fora atingido por alguém. Os trabalhadores sentam, Enki é muito respeitado pelos mineiros, isso fez a diferença. Ainda ouvia-se ainda alguma conversa, Nammu foi saindo lentamente de seu esconderijo. Enki dirigiu-se ao seu irmão e lhe falou.
- É a sua chance de convencê-los. Se não conseguir, nem a autoridade que tenho sobre eles irá te salvar!
Os trabalhadores se rebelaram contra o Chanceler. Não admitiam a demora com que ele atendeu a seu pedido, consideraram um descaso, afinal eles estavam minerando o material que salvaria seu planeta e a eles próprios. Já estavam esperando por esta reunião há vários meses, Enki foi pessoalmente, várias vezes falar com Enlil, exigindo sua presença, presença esta, que só ser tornou realidade graças à greve dos mineradores. A desculpa do Chanceler sempre foi à construção de Eridu, mas, para os mineiros, nenhuma construção de cidade justificaria esta demora.
Por um momento, o Chanceler se viu em maus lençóis, não esperava por esta reação tão violenta e sabia que sua pequena escolta não seria suficiente para salva-lo, se não fosse pelo respeito que os operários têm por Enki, certamente, teria acontecido o pior. Agora teria a oportunidade para se justificar, isso o deixava um pouco mais tranquilo, tinha confiança em sua capacidade de convencimento, já enfrentara platéias exaltadas anteriormente e sempre saiu vitorioso. – Esses trogloditas podem ser facilmente manipulados! – pensou.
Ajeitou sua roupa, passou a mão pelos cabelos, tomou fôlego e deu um passo a frente em direção aos trabalhadores.
- Senhores – começou -, reconheço como legitima a revolta demonstrada e solidarizo com vocês. Realmente eu pequei em adiar nosso encontro, mas, posso assegurá-los que tenho um bom motivo e provarei agora para os senhores.
Houve um pequeno alvoroço entre os operários, Enki apertou a arma com as mãos, preparando-se para possível necessidade de usá-la. O Chanceler acena com a mão pedindo calma, e prossegue:
- Quando descobrimos este mundo nosso povo viu mais que um planeta, viu a esperança para curar um mau que nós mesmos causamos e que, quase nos destruiu. – Deu uma pequena pausa – Depois, nós sabíamos qual era o remédio para curar o mau, mas, ainda estava faltando o principal. Precisávamos de heróis para buscar este remédio.
Em nossa história, senhores, sempre tivemos muitos heróis. Alguns se arriscaram contra um governo medíocre sem esperar recompensa, apenas, salvar nossa gente. Tivemos ainda heróis que saíram pelo espaço, coisa que nunca fizemos anteriormente, procurando o minério que precisamos para salvar nosso planeta, e encontraram. Agora, novamente precisemos de heróis, mas estes devem ser especiais, porque, além de heróis, devem ser mártires. Devem realizar sacrifícios desmedidos, tomando parte de uma façanha que ninguém mais havia tentado. E hoje, senhores, eu estou diante destes heróis.
Alguns protestos foram ouvidos, sabiam que estavam sendo bajulados. O Chanceler ignorou os comentários, aumentou o tom de voz e prosseguiu.
- Amigos. Vocês são heróis, verdadeiros heróis e jamais, ouviram, jamais deixem alguém falar o contrário. Enquanto a maioria de nosso povo está no conforto de Nibiru, vocês aceitaram o convite para esta aventura em um planeta distante e selvagem. Longe de suas famílias, longe de seus amigos, longe do conforto, longe de seus amores... Quem mais aceitaria está missão além de heróis? Eu, meus amigos, abri mão do segundo cargo mais importante em nosso planeta, para vir para este distante e gelado planeta, assim como vocês, voluntariamente e, sabem por quê? Porque eu sempre soube quão duro seria o trabalho aqui, e sabia também, que ficaríamos muitos anos explorando os recursos deste mundo.
Vi que não seria possível manter pessoas trabalhando por todos estes anos em condições tão precárias como as que nos encontramos hoje e, ainda por cima, longe dos seus. Ninguém aguentaria. Ninguém, por mais herói que fosse. E é por isso que estou investindo recursos que poderiam ser utilizados nas minas para realização do que, muitos chamam de utopia, mas que eu chamo de um novo lar, uma cidade Anunnaki em Nippur.
O Chanceler deu uma pequena pausa em seu discurso, sabe que este recurso chama ainda mais a platéia para suas palavras, então continuou:
- Alguns estão aqui a quase um ano de Nibiru, outros um pouco mais, e já não estão suportando o pesado fardo e, eu sabia que ninguém suportaria mesmo. As condições são muito duras, mesmo nossos veículos e máquinas não aguentaram. Com a construção desta cidade, iremos trazer um pedaço de nosso lar para Nippur, traremos nossas famílias, teremos entretenimento, lazer, realmente um lar. Este é meu objetivo, porque eu sei que necessitaremos do processo de mineração por muito mais tempo ainda. Só iremos parar quando exaurir os recursos de Nippur.
Novamente a platéia começou a ficar impaciente. Percebendo isso, Enlil muda um pouco sua estratégia.
- Quando Enki me procurou – prosseguiu -, solicitando esta reunião, achei importante vir até vocês não apenas com discursos ou promessas, mas, com soluções concretas. E este é o motivo da minha demora em visitá-los, de forma alguma foi descaso. Eu trago soluções!
Os Anunnakis se agitam ainda mais. O Chanceler pede silencio e prossegue:
- Vocês, mais que ninguém sabem que, nossas máquinas não foram desenvolvidas para trabalhar em tão duras condições e, principalmente em um lugar tão frio. Solicitei ao departamento de engenharia de Nibiru uma solução. Infelizmente a resposta não foi positiva.
Segundo os engenheiros, precisaríamos de máquinas pequenas, resistentes ao frio e umidade e com inteligência superior para operar de forma auto-suficiente. Não teríamos estas máquinas a curto ou médio prazo. Foi então que me veio uma idéia, porque não utilizarmos uma das ciências mais desenvolvidas por nossa raça, a qual temos profundos conhecimentos e grande experiência? Novamente consultei nosso planeta e, agora sim, a resposta foi mais positiva. A solução mais simples, rápida e viável possível será, através da engenharia Genética, a criação de um trabalhador artificial, criado exclusivamente para trabalhar em Nippur.
A solução apresentada pelo Chanceler soou como impossível aos trabalhadores, que desconheciam completamente esta ciência - Criar um trabalhador através de engenharia genética? - Parecia aos olhos dos operários, ficção. Mas na verdade não era. Já haviam criado vários seres artificiais em seu mundo, antes de vigorar a lei ambiental e, possuíam a tecnologia para isso. Mas a idéia causou um grande alvoroço, tanto que precisou novamente da intervenção de Enki, que gritou pedindo silêncio, ao que os operários atenderam.
- Não é nada fantasiosa esta idéia, meus amigos. – Argumenta o Chanceler - Vejam os exemplos que temos, os canineus são um deles e já estão conosco há tanto tempo que até esquecemos que nós os criamos artificialmente e há muito tempo, quando nossa tecnologia ainda era bem menor. Mas para não deixar dúvidas de que isso é possível, trouxe até vocês, um especialista que pode dar seu parecer técnico. A Doutora Nammu.
O Chanceler aponta em direção a Nammu, vários assovios foram ouvidos. Ela foi pega de surpresa, não contava com isso, e titubeou ao responder.
- Bem... é possível... temos que fazer um estudo mais aprofundado... tem ainda os impedimentos legais...
Ao ver sua hesitação, o Chanceler interrompeu.
- Os problemas legais já estão resolvidos. Estamos em outro planeta e tenho o aval do Rei para esta criação. Mas, se você não se sentir confortável com este projeto, não se preocupe. Conversei com o Doutor Ninhursag em nosso planeta e ele se mostrou feliz em vir para gerenciar este projeto aqui em Nippur, posso chamá-lo imediatamente.
Foi um golpe baixo, Nammu tem uma rixa pessoal com Ninhursag. Eles foram namorados na faculdade, ela o amava. Nunca suspeitou das suas verdadeiras intenções. Ninhursag roubou o projeto de Nammu, apresentando-o como seu. Este projeto lhe rendeu muito prestigio, e uma ótima bolsa para pesquisas. Nammu ficou sem nada, jamais conseguiu provar que o projeto era seu. Além do coração partido, ainda perdeu alguns anos de dedicação a algo que não lhe rendeu nada.
O Chanceler sabia que Nammu não iria correr o risco de ser subordinada pelo seu desafeto, e tinha razão. Imediatamente o discurso de Nammu tomou outro rumo.
- É possível sim, a criação de um trabalhador artificial para trabalhar nas minas! – Interrompe Nammu - Temos a tecnologia e já fizemos isso antes. Precisamos apenas levantar o perfil deste novo ser e encontrar os DNA's de seres que se encaixem neste perfil, provavelmente de animais nativos pois já são acostumados ao clima. Depois é só manipulá-los conforme nossa necessidade. Podemos sim, criar um trabalhador artificial e... eu o farei!
- Eu não aceito trabalhar com este desonesto! – Grita Nammu - Se ele vai ficar, eu peço minha demissão!
- Não gostaria de perde-la doutora – respondeu o Reitor -, mas, não tenho escolha. Se prefere sair, eu entendo sua decisão.
Nammu não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Olhou para Ninhursag, que esboçava um olhar de satisfação. Ela sentiu vontade de matá-lo, mas não podia. Um aperto veio subitamente ao seu peito, e sentiu uma vontade incontrolável de chorar, mas não iria dar este gosto a ele. Simplesmente, girou nos calcanhares, e saiu da sala, batendo a porta atrás de si.
- Parabéns Senhor Reitor. – Falou o arrogante Ninhursag - Aqui está o generoso cheque que meus superiores prometeram. – E jogou, desdenhosamente, o cheque sobre a mesa do Reitor.
- Ela não merecia isto. – Desabafou o Reitor sacudindo penosamente a cabeça - Se minha instituição não estivesse precisando urgentemente deste dinheiro, jamais aceitaria.
- Que isto lhe sirva de lição, Reitor. – Ninhursag exibe um sorriso asqueroso - A partir de agora, controle melhor seus gastos.
CAPÍTULO 72
Estabelece a criação do “Espaço para Descanso e Nascimento – (EDEN)” para os Trabalhadores Primitivos doravante chamados de “Lulu Amelu”.
O CHANCELER DE NIPPUR, no uso da atribuição que lhe confere
DECRETA:
1 – Fica criado o “Espaço para Descanso e Nascimento – (EDEN)”, que servirá de abrigo e local de reprodução para os Lulu Amelus;
2 - Trinta (30) indivíduos, denominados “Lulu Amelus”, serão encaminhados para trabalhar na construção da cidade que abrigará os colonizadores, tanto residentes em Nippur quanto vindouros;
- Este será um período para verificação do comportamento dos “Lulu Amelus” perante o trabalho. Sendo esta, bem sucedida, serão encaminhados para trabalhar nas aralis;
- Todas as noites, os 30 indivíduos deverão ser encaminhados para repouso no EDEN.
3 – Sessenta (60) indivíduos, denominados “Lulu Amelus”, serão divididos em trinta casais e serão encaminhados ao EDEN com a única função de reprodução e geração de novos trabalhadores para servir aos Anunnakis;
- A reprodução será acompanhada pelos cientistas, com intenção de avaliar se as proles serão perfeitas e aptas.
Chanceler Enlil
- É o decreto que estipulou a criação do EDEN! – Fala Nebo.
- Mas, se havia um decreto do Chanceler, como nós fomos expulsos? – Pergunta Lizi -Eles não foram punidos por descumprir uma lei?
- O EDEN era muito mais confortável que os abrigos dos primeiros colonizadores - fala Nebo -, e Eridu ainda era só um projeto. Isso revoltou os Anunnakis. Eles não aceitaram que os escravos, os Lulu Amelus, possuíssem um abrigo mais confortável que eles próprios. Foi inveja pura e, o Chanceler, como bom político, ficou do lado dos Anunnakis, é claro. Ai o decreto caiu por terra.
Havia outra folha escrita no mural, era uma espécie de manual, de como os Lulu Amelus deviam ser criados e cuidados para se manterem saudáveis e aptos ao trabalho.
- 1 aos 5 anos : Deve ficar somente com os genitores e não deve trabalhar;
- 5 aos 15 anos : Deve ser encaminhado para ser alfabetizado e aprender uma profissão. Volta aos cuidados dos genitores todas as noites;
- 15 aos 100 anos : Idade útil para o Trabalho/Reprodução em toda sua capacidade;
- 100 anos ao fim da vida : Apto ao trabalho, porém não deve ser submetido a trabalhos pesados. Aconselha-se que assumam cargos de Guias/orientadores. Não é mais capaz de reprodução.
- Manhã: Desjejum reforçado, rico em calorias e nutrientes;
- Meio dia: Refeição completa, rica em calorias e nutrientes;
- Antes de dormir: Refeição leve e rica em fibras.
- Devem ser fornecidas as matérias primas selecionadas para a elaboração das refeições, estas serão preparadas pelos próprios Lulu Amelus, que receberão o treinamento para esta tarefa.
- O tempo de sono mínimo necessário é de 8 (oito) horas por noite;
- Devem gozar de, pelo menos, um dia de descanso a cada seis de trabalho.
A manual prossegue apresentando detalhes sobre o ciclo de vida, cuidados médicos, dentários e demais informações sobre “como utilizar” os novos trabalhadores.
- Lembro deste manual. – Fala Nebo - Ele foi elaborado pela equipe da Doutora Nammu e entregue juntamente com os novos trabalhadores. O Chanceler preparou uma grande festa com a presença de todos os Anunnakis de Nippur para esta entrega. A empolgação era visível, todos esperavam o grande momento em que os Lulu Amelus seriam apresentados. Até aquele momento, apenas os cientistas e alguns lideres, com exceção de mim, tiveram a oportunidade de vê-los.
O Chanceler abril a festa com um caloroso discurso, frisando os benefícios que os Lulu Amelus iriam proporcionar aos Anunnakis que vivem e viveriam em Nippur, que a partir de agora poderão se preocupar em evoluir tecnologicamente, artisticamente e culturalmente ao invés de perder seu tempo com trabalho braçal. Comentou ainda que trinta trabalhadores serão disponibilizados imediatamente ao trabalho, primeiramente na cidade para avaliação de seu desempenho pelos cientistas e, se tudo correr bem, a próxima geração já iria para as aralis. Os outros iriam se reproduzir também para analise das proles e aumento do plantel.
O ponto alto, porém, foi quando as cortinas se abriram e, os Lulu Amelus foram mostrados no palanque do discurso. À frente estava Adapa, seguido pelos outro 90 exemplares. No início um grande “Ooohhhh” foi ouvido, mostrando a surpresa dos Anunnakis, que depois irromperam em gritos e aplausos. Aquilo foi para Nammu, que estava junto com sua criação, o reconhecimento pelo objetivo alcançado.
- Eu já os conhecia, virei amigo de Adapa – comentou orgulhosamente Nebo –, mas, para o restante dos colonizadores foi uma surpresa, uma agradável surpresa. Estavam vestidos com os uniformes criados exclusivamente para utilizarem no trabalho, eram confortáveis e quentes. Eram seres muito bonitos, e isso foi comentado por vários dos presentes.
Nammu foi chamada pelo Chanceler a frente do palanque e fez um discurso, no qual falou sobre o processo de criação e das dificuldades e acertos ocorridos no processo. Os discursos foram encerrados por Adapa que agradeceu aos Anunnakis pela sua criação e de seus irmãos e de como estavam felizes por existir.
Mal sabia Adapa, o que o destino reservava para sua espécie...
- Sim doutora. Por favor, entre e sente-se – Responde o Reitor, apontando para uma das cadeiras em frente a sua mesa.
- Bem Doutora... vou direto ao assunto. – Começa o Reitor - Como sabe, nossa universidade recebe doações de muitos colaboradores, isso proporciona os recursos para mantermos a qualidade de sempre.
- Sim Reitor. Sei bem disso. – Nammu não estava entendendo onde ele queria chegar.
- É raro, mas, às vezes, estes grandes colaboradores nos pedem alguns favores. Favores estes, que não podemos recusar.
- Se é sobre os Lulus, sabe que temos um acordo... - – Nammu já imaginou que seria para falar sobre os Lulu Amelus. Eles haviam feito um acordo quando ela aceitou a cadeira para lecionar Genética Modificada, para que não precisasse falar sobre este assunto.
- Não, não, não.... não é sobre isso, pode ficar tranquila. Nosso acordo esta, e estará sempre, mantido.
Nammu não respondeu nada, ficou apenas olhando, curiosa, sobre o que seria tão importante a respeito dos investidores que precisasse daquela conversa.
- O que me foi solicitado por um dos grandes doadores, foi um pedido simples, e que, não vi motivos para recusar – comentou na tentativa de tranquilizar Nammu -, mas achei melhor informar, antecipadamente, minha mais graduada professora, afinal, você mesmo, recusou o cargo.
O reitor a havia convidado para assumir o cargo de coordenadora do curso de Engenharia Genética, mas, ela recusou, ficando somente com as aulas.
- Agradeço por me informar, mas, não vejo necessidade, ou terei poder de vetar a indicação?
- Infelizmente não, nem mesmo eu, nestas circunstâncias, possuo este poder. – Fala o Reitor - Mas, achei sensato lhe informar, afinal, o novo coordenador, é alguém que você conhece!
Nammu ficou pensativa, tentando imaginar quem seria. Não conseguia imaginar ninguém com perfil para o cargo. Nem teve tempo de perguntar, o comunicador da mesa do Reitor tocou. Era sua secretária, avisando que o novo coordenador do curso de Engenharia Genética o estava aguardando. O Reitor pediu para que entrasse, imediatamente.
A porta se abre e, Nammu não acredita no que seus olhos vêem. Levanta-se rapidamente da cadeira e, sem pensar, fala nervosamente:
- Você? Não é possível! Deve ser brincadeira!
CAPÍTULO 71
O homem que estava à porta da aeronave olha ao redor atentamente e, de tempos em tempos usa um binóculo para ver melhor os detalhes. Por alguns instantes a aeronave ficou planando onde está o que restou de minha moto. O lugar é repleto de arvores nativas, acho que é mata atlântica. Minha moto pode ser parcialmente vista através das copas das árvores. Para minha sorte, não existe uma clareira para pouso, e por isso, fica a duvida, se estou ou não morto junto com meu veiculo.
Não tendo grandes informações, o helicóptero se retira. Não sei ao certo o que vão fazer, mas desconfio que farão uma ação por terra, afinal, precisam recuperar os decalques que, felizmente, ainda estão às minhas costas, dentro de minha mochila.
Não esperei para ver a próxima ação de meus perseguidores, sei que, tão logo não encontrem meu corpo, farão uma busca pela floresta. Saí imediatamente de traz do arbusto que me escondia, e segui para o lado onde achei, seria mais difícil ser localizado.
Andando pela floresta, lembranças de minha infância vieram à cabeça. Fui criado no interior, em um sitio. Havia lá uma floresta como esta, onde eu passava o dia, muitas vezes, só retornando a minha casa para dormir. Era muito divertido e agora, será de grande valia.
Sei bem como sobreviver neste ambiente úmido de mata do sul do Brasil. Sei como encontrar alimento e água e, apesar do frio, a roupa a prova de chuva que comprei para andar de moto, me manterá seco e aquecido, mesmo sem ter como acender uma fogueira. O canivete existente em meu chaveiro, que ganhei de um aluno e que, por alguma razão levo sempre comigo, agora, finalmente terá utilidade.
No primeiro dia não parei, segui, me guiando pelo sol sempre em uma mesma direção, só parei alguns segundos para tomar fôlego e um pouco de água que empossam nas folhas de algumas árvores nativas. Esta é uma regra básica para quem está perdido: - Seguir sempre em linha reta! – É muito comum, em um ambiente semelhante, como uma floresta, ou um deserto, que, nosso corpo penda para nosso lado dominante, no meu caso, lado direito. Isso nos faz, inevitavelmente, andar em círculos. Por isso precisamos nos guiar por um ponto fixo que esteja fora do ambiente, como o sol, estrelas ou montanhas visíveis.
Aprendi isso, por experiência própria, durante minhas incursões de infância.
Quando começou a anoitecer, achei prudente preparar um lugar para pernoitar. Procurei um local mais elevado, para não ficar totalmente exposto à umidade. Consegui alguns galhos com folhas, com os quais me cobriria, não pelo frio, mas, como camuflagem. Já me escondi muito na mata, principalmente, quando pegava sem autorização, frutas no pomar dos visinhos de sitio.
Vendo meu abrigo pronto, agora preciso encontrar algo para comer, estou com fome. Cortei, com muito sacrifício, já que o canivete não está afiado, uma palmeira, que encontrei próximo. Retirei seu talo, que é macio, muito saboroso e nutritivo, conhecido comercialmente como palmito. Havia muitos anos que não o comia assim, em natura, geralmente o palmito é vendido em conserva. Comendo este quitute nativo de nossas matas, comecei a filosofar em como a ganância humana e interesses econômicos mesquinhos estão levando a extinção produtos maravilhosos que nos são oferecidos de graça pela natureza e o palmito é um exemplo clássico.
Como a palmeira demora muitos anos para se formar, e como, comercialmente, “tempo é dinheiro”, poucos são os casos de plantações sustentáveis desta planta. O produto que chega a nossa mesa, na maioria das vezes, vem através de uma extração ilegal e inconseqüente que certamente ocasionará a extinção desta planta de forma bastante precoce, muito provavelmente, as gerações futuras saberão do palmito através de livros, onde haverá fotos e descrições de uma exótica planta extinta. Falarão do palmito, da mesma forma que hoje falamos do extinto pássaro Dodô.
É realmente uma pena que o ser humano ainda não tenha evoluído suficiente para manter a sua vida sem acabar com a natureza. Bem, talvez jamais alcancemos este grau de evolução, talvez, não tenhamos esta capacidade.
Já alimentado, dormi em meu esconderijo improvisado, realmente, estou exausto.
- O exercito de Lulus está fora de cogitação!
Como de costume, o Chanceler Enlil está em seu computador escrevendo notas que o ajudam a resolver problemas. Esta técnica já se mostrou perigosa, com o vazamento de informações graças a Nebo, o informático. Felizmente, para Enlil, ele tem novamente o controle da situação, e Nebo, juntamente com sua Lulu, estão mortos e as informações recuperadas, pelo menos, é o que ele sabe. O problema agora é outro, e bem maior.
- Convencer os Lulus a guerrear... Motivação... Ódio...
- Estou cercado de incompetentes! – Falou Enlil consigo mesmo – Nem meu General de Defesa tem a competência suficiente para motivar seu exercito a lutar. Preciso achar uma solução...
Suas anotações nunca falham e, ele tem uma grande idéia. Chama a sua secretária.
- Pois não senhor. – Fala ela ao entrar no gabinete.
- Sente-se, por favor. – Responde o Chanceler, apontando a poltrona a sua frente – A senhora deve lembrar-se da reunião que fiz com os principais Anunnakis de Nippur, para resolver o problema de insubordinação dos Lulus.
- Sim senhor, eu lembro.
- E a senhora foi quem deu a principal idéia, idéia esta, que colocamos em prática com grande êxito. Devido a isso todos os Anunnakis de Nippur lhe são gratos.
- Foi um prazer ajudar.
- Me diga uma coisa – fez uma pausa -, pelo seu conhecimento de psicologia, a senhora acha viável um tratamento psicológico, que influencie até as próximas gerações.
- Como assim senhor?
- Veja bem, temos que, o tempo todo, castigar os Lulus e lembrá-los que enviaremos seus familiares às aralis, caso nos desobedeçam. Será que, poderíamos ter um tratamento mais forte, que, gradualmente, de geração para geração, conseguíssemos imputar uma nova forma de os Lulus pensarem e agirem?
- Certamente senhor. Eu estava lendo uma matéria de um grande psicólogo Anunnaki que conseguiu maravilhas com tratamento a longo prazo em crianças Anunnakis. Crianças que, com absoluta certeza, seriam grandes perdedores, profissionais derrotados, conseguiram, com este tratamento, tornarem-se grandes empresários e profissionais, dispostos a tudo para serem bem sucedidos, não importando a que custo. E, como o senhor sabe, isto é muito valorizado em nossa cultura.
- Hummm! – Respondeu Enlil colocando sua mão no queixo – E o nome deste psicólogo, a senhora lembra?
- Claro, seu nome é Namtar!
- Por favor, consiga que eu fale com este psicólogo, com urgência. Antes mesmo, de a primeira espaçonave decolar de Nibiru.
O dia clareou em Nippur. Os três dirigiram-se ao EDEN para incendiá-lo.
Resolveram esperar o amanhecer, para que a claridade das chamas não fosse visível, possivelmente chamando a atenção.
Dentro do prédio, estavam os cadáveres dos Anunnakis, comparsas de Kalkal. Gilgamesh olhou para os dois, e não pode evitar em olhar para Lizi. Ela estava com a mesma expressão de Agnish, quando ele matou o Anunnaki que tentou violentá-la. Durante toda a noite, ouviu Nebo tentando em vão, convencer-la que foi preciso que, ou eram os Anunnakis ou eles, e seu filho, mas, assim como Agnish, Lizi também não aceitava as mortes.
Gilgamesh não conseguia entender esta atitude por parte dos Lulus. Ninsun, sua mãe, sempre o ensinou que, somente deveria matar outro ser vivo, para servir de alimento, desde que não houvesse desperdício, mas, para ele, o tratamento com os Anunnakis deve ser diferente, afinal, eles são inimigos.
Antes de atear fogo, Gilgamesh olhou bem para todos os detalhes do lugar. Queria poder passar para todos o que vira no lugar em que os Lulus foram tratados dignamente, no paraíso em Nippur, o EDEN. Infelizmente, tudo o que via era um amontoado de entulhos de um dormitório coletivo, nada que pudesse ser chamado de “paraíso”, como os Lulus se referiam a ele.
Virando-se em direção ao casal, que estava próximo a porta de saída, notou algo que não havia notado anteriormente. Do lado esquerdo da porta, há um mural, protegido com um vidro. Dentro dele, existem dois papeis escritos. O primeiro é pequeno e parece um informativo, o segundo é maior e se assemelha a uma lista. Gilgamesh aproximou-se para poder ler o que estava escrito. Vendo sua atitude, Lizi e Nebo também aproximaram do mural para ler os papeis afixados.
Para Nebo, não foi novidade, porem para Lizi e Gilgamesh, o que estava escrito os deixou fortemente impressionados.
CAPÍTULO 70
A viagem foi longa, aumentada ainda mais pela curiosidade pelo que encontrariam. Formam um seleto grupo de cientistas, todos voluntários, todos jovens, cheios de sonhos, cheios de curiosidade pelo que irão encontrar, pelo que os aguarda neste exótico planeta recém descoberto, planeta este, a esperança de todos que viam seu planeta natal, agonizando.
O objetivo da equipe, formada por Botânicos, Químicos, Geólogos, Biólogos entre outros profissionais, era pesquisar o planeta em todos os seus aspectos, desde seus animais, suas plantas, seus minérios e quaisquer outras informações, que possam ser úteis para Nibiru e para seu povo.
Dentre estes cientistas está Nammu.
Desde que descobriram o novo planeta, ela o pressentia em seu destino. Alguma coisa parecia ligá-la a Nippur, nome dado ao planeta recém descoberto e que significa “Lugar de Passagem”. Um planeta extremamente gelado, envolto por uma enorme camada de gelo em sua superfície, o que do espaço lhe dá a aparência de uma grande bola branca
Talvez fosse a atração em pesquisar espécies totalmente diferentes das existentes em seu planeta, descobrir como seria sua estrutura genética, como suportavam viver em tão duras condições, como surgiram e evoluíram. Mas parecia que havia algo mais neste planeta, algo que ela não sabia explicar, algo forte a ligava a este mundo, e agora ela estava ali, prestes a desembarcar, não conseguia esconder a excitação.
A espaçonave começa a sacudir.
– Estamos entrando na atmosfera! – Gritou um empolgado Meteorologista – Pela resistência, é bem densa! – concluiu.
Porém ninguém se mostrou interessado em seu conhecimento neste momento. Viam-se por toda parte sorrisos nervosos, unhas sendo roídas, e outras reações que demonstravam o nervosismo dos cientistas presentes. Era algo inédito, nunca sua civilização lançou-se em tamanha aventura, e eles, eram pioneiros.
As sacudidas da espaçonave foram aos poucos diminuindo, até cessar por completo, nuvens surgiram do lado de fora, e aos poucos, os excitados cientistas começaram a ver do alto o solo do novo planeta.
E não era nada do que parecia do espaço.
Quanto mais a espaçonave aproximava-se do solo, mais os indícios de uma flora e uma fauna abundante despontavam. Um tapete verde se estende, contrastando com o azul das águas. Mais próximos do solo podem ver alguns animais que voavam tranquilamente, sem se importar com a espaçonave. A vida abunda por todo lado, e todos os cientistas estão boquiabertos com o que vêem.
Finalmente a espaçonave alcança o solo, o comandante passa orientações aos recém chegados para não se esquecerem de vestir seus trajes de sobrevivência. Ele serviria tanto para protegerem-se do frio como para evitar alguma possível contaminação, já que havia ainda a necessidade de um estudo mais aprofundado do planeta e de sua atmosfera, que poderia possuir alguma contaminação fatal para os Anunnakis.
O traje não era o que se pode chamar de confortável, também possuía design e cores de gosto duvidoso, mas manteria suas vidas.
Os trajes, assim como todo material de exploração espacial foram projetados e construídos tendo como único pré-requisito: a funcionalidade. Já que a exploração espacial não foi motivada simplesmente pela curiosidade, e sim pela necessidade, e uma necessidade urgente.
Os novatos foram recebidos pelo administrador da base que os dirigiu aos alojamentos, e indicou para cada um o seu aposento. Tudo era bastante improvisado, os prédios eram pré-fabricados e foram trazidos de Nibiru. Estavam realmente no começo da colonização. Também os informou que, dentro de duas horas, pelo fuso horário local, seria oferecida uma refeição pelo Chanceler e Regente de Nippur, Enlil, que lhes daria as boas vindas. Após todos iriam participar de uma palestra com orientações de como se portar no novo planeta para evitar perderem precocemente suas vidas.
O jantar ocorreu em um refeitório também improvisado. O local era onde os poucos desbravadores que estavam nesta parte do planeta realizavam suas refeições. A maioria estava trabalhando nas minas, batizadas de aralis, que ficam mais ao sul do planeta, onde é mais frio. O alto comando escolheu o melhor lugar para se instalar, um lugar mais quente, apesar de que, ainda muito frio para os padrões Anunnakis. Uma equipe de trabalhadores fora destacada para construir moradias, visando tornar a vida dos desbravadores mais confortável.
A refeição não foi nada sofisticada, comeram o alimento industrializado em seu planeta que é enviado periodicamente, sempre que ocorre a aproximação das órbitas dos dois planetas, para alimentar os trabalhadores de Nippur. A aproximação das órbitas ocorre a cada 3600 anos de Nippur, o que completa o período de um ano de Nibiru. Esta foi a forma encontrada para reduzir o gasto com as viagens entre os planetas, e também proporcionar mais conforto aos tripulantes que passam menos tempo dentro das espaçonaves, se deslocando entre os dois planetas.
Após a refeição, todos foram levados a um pequeno, e também improvisado, auditório onde o Chanceler Enlil imediatamente foi à frente para falar aos recém chegados.
- Caros Cientistas – começou, já com seu tradicional sorriso de político no rosto –, sejam bem vindos a Nippur!
Enlil é uma figura pública, e já bem conhecida de todos, ao menos pela mídia. Seu pai foi um grande Cientista e considerado um herói em seu planeta, se estavam ali agora e vivos, foi graças a ele, e a Anu, que depois tornou-se Rei. Enlil não seguiu o caminho de seu pai, mas obteve destaque mesmo assim, ainda jovem entrou para política, e trilhou um caminho de sucesso. Veio para Nippur como voluntário, ninguém entendeu o porquê, abrindo mão do segundo cargo mais importante de Nibiru, o de Primeiro Ministro.
Como bom político, possui uma aparência imponente, olhar firme e decidido, de quem dá ordens e exige seu cumprimento, sua voz inspira confiança, apesar de todos saberem bem quanta confiança inspira um político. Tem fama de autoritário. Havia rumores de Anunnakis que perderam tudo o que tinham e não mais conseguiram colocação em suas áreas de atuação por sua influencia, indo a completa falência, graças a não cumprirem suas ordens como deveriam. Algumas denuncias de ser o mandante dos assassinatos de desafetos, políticos ou não, também recaiam em seus ombros, mas, em todas as acusações, saiu como inocente.
- Nós temos hoje a oportunidade – continuou Enlil –, de extirparmos de uma vez por todas a preocupação sempre presente em nossa gente, que é a de um iminente fim. Este novo planeta que agora estamos, é a maior esperança de nosso povo. Mas de nada adiantaria este planeta, se não houvesse Anunnakis dispostos a transformar esta esperança em uma feliz realidade. Senhoras e Senhores, seus nomes irão entrar para história como heróis. Desbravadores, que encontraram neste pequeno planeta a cura para o nosso amado lar...
O discurso de Enlil se alongou por vários minutos, sempre com a intenção de motivar os recém chegados. Em seguida foi à frente o chefe de segurança de Nippur, que passou uma lista situações que deveriam ser evitados para sua própria segurança. Expôs o perigo dos grandes animais selvagens, falou também sobre o perigo do gelo e que a rotação do novo planeta é muito rápida, com grande alternância entre dia e noite. Falou da existência animais extremamente perigosos, e ainda não estudados a contento, e de alguns, que caçam somente no escuro e por isso deveriam ter cuidado especial neste período. Também passou ordem expressas do Chanceler deixando claro que ninguém deveria sair dos limites dos alojamentos sem sua prévia autorização.
Em seguida todos foram levados para conhecer melhor as instalações e seu local de trabalho, não deveriam perder tempo em começar as suas pesquisas. Para cada uma das especialidades já havia um moderno, apesar de improvisado, local de trabalho. Também foram designados alguns assistentes para auxiliar no trabalho de cada cientista.
Nammu recebeu um laboratório completo, com tudo que se podia ter de mais moderno para pesquisas genéticas, o que a deixou ainda mais empolgada. Foi apresentada a seus auxiliares, dois Técnicos em Genética, dois Analistas, entre eles Linsh, e um ajudante para os trabalhos mais braçais, como retirar amostras dos espécimes.
Toda angustia acumulada em seu peito, finalmente saiu.
O desabafo e a conversa sobre um assunto tão delicado fez muito bem a Nammu. No fim, ela saiu da casa de Linsh mais aliviada, com seu fardo menos pesado, e sentindo-se menos culpada.
Ela agradeceu a hospitalidade e os conselhos e foi embora, com um esboço de sorriso em seu rosto, coisa, que já nem lembrava mais como fazer. Linsh ficou à porta enquanto Nammu pegava um taxi, sempre apresentando um grande e carismático sorriso.
– Muito boa Anunnaki esta Linsh – pensou Nammu já no taxi –, devia tê-la procurado há mais tempo. Ela continua tão amiga quanto era em Nippur!
Quando o taxi desapareceu de vista, Linsh entrou e, foi imediatamente para um dos quartos de sua casa, que estava trancado a chaves. Dentro, havia um comunicador. Ela o liga, não precisa discar nada, a ligação se completa automaticamente. Quando alguém atende do outro lado, ela fala:
- Temos um problema com Nammu... ela está no limite, está querendo abrir o bico. Senhor, acho que chegou à hora!
CAPÍTULO 69
Poderia ser uma aeronave qualquer, mas, já estava calejado com a situação, por isso, resolvi não pagar para ver.
Olhando para o alto do barranco, constatei que o cume estava a uns dois metros além do que podia alcançar. Existiam muitas raízes das árvores que se equilibravam para não despencar e que, graças à erosão do terreno, fatalmente fariam seu último mergulho no despenhadeiro. Em outra situação, meu medo de altura não deixaria me arriscar a isso, mas, este é um momento impar.
Escolhi as raízes com aparência mais sólida e comecei a escalar o que restava do barranco, segurando-me nelas. Quanto mais próximo parecia o ronco do motor do helicóptero, mais rapidamente e desesperadamente, eu subia, agarrando-me às raízes. Neste momento, estava vendo o gramado do topo do barranco, faltavam apenas uns vinte centímetros para alcançar o cume, quando, à raiz que segurava-me com o braço esquerdo, partiu.
Despenquei, mas apenas alguns centímetros, já que, como havia muitas raízes, consegui agarrar em outra, isso acabou esfolando a palma de minha mão, que ardeu. O susto foi muito grande, e inevitavelmente, olhei para baixo.
Fui tomado pela vertigem.
Segurei tão firme nas raízes, que minhas mãos começaram a doer. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter minhas emoções. Não sei se foi esta técnica que me ajudou, ou se foi o ronco do helicóptero que agora parecia estar a alguns metros, mas, o que importa é que tomei coragem e, em um movimento praticamente mecânico, subi até o topo com extrema rapidez.
Já no gramado, rolei para traz de uma pequena moita tentando me esconder. Neste exato momento, o helicóptero passa próximo ao barranco e claramente pude ver um de meus perseguidores armado, pendurado do lado de fora da aeronave, olhando atentamente em direção a onde estavam os restos de minha moto.
Certamente estava a minha procura.
Os fantasmas das experiências mal sucedidas a atormentavam.
Nammu acorda assustada, imediatamente senta em sua cama, está ofegante. Novamente aquele sonho. Já vem tendo estes sonhos há muito tempo, tão logo retornou para Nibiru, porém, a cada dia estão mais nítidos e, mais horríveis.
Em seu freqüente sonho, ela está andando entre grandes potes de vidro, ela sabe bem que potes são estes, são os potes de seu antigo laboratório em Nippur. As pesquisas para criação de uma nova espécie, por si só, não é fácil e, com o prazo apertado que tinham, muitos dos testes precisaram sair antecipadamente do território da teoria e inconsequentemente ir direto para prática.
Com caráter legitimamente acadêmico, resolveram documentar todos os resultados gerados. Para isso, armazenaram em grandes potes de vidro com uma solução química que impediria sua decomposição, todas as quimeras resultantes de suas experiências. Aquilo ficou horrível, realmente grotesco.
Seres com todas as deformações possíveis estão expostos, muitos esboçando um terrível olhar de desespero e dor, frente a sua natureza bizarra, o que deixava ainda mais sinistra a amostra. Naqueles potes, agora abandonados em seu ex-laboratório de Nippur, estão expostos seres com as deformidades mais variadas. Alguns tem a aparência de uma colcha de retalhos, como se, várias partes de vários animais fossem medonhamente costuradas, umas nas outras, outros não passam de uma bola de carne disforme, passando ainda pelos que possuíam vários membros a mais ou a menos, como, duas ou três cabeças, quatro braços ou até nenhum membro.
Para uma geneticista como Nammu, esta visão não tem muito impacto, mas, em seu sonho, todos estes seres ainda estão vivos, e lamentando por existirem, implorando pela morte. Seu sonho sempre acaba, quando em um dos potes de vidro, encontra um Lulu Amelu. Mas não é qualquer Lulu, é um muito querido, e sua fisionomia é de extremo terror. O Lulu Amelu que está vivo, dentro do grande pote de vidro, é Adapa.
Nammu reparara que ele possui diversos ferimentos, ela não consegue ouvi-lo, mas sabe que está implorando por socorro. O Lulu Amelu bate desesperadamente com os punhos no vidro, tentado quebrá-lo, ele sangra muito, tornando o liquido ao qual está exposto, vermelho. Do lado de fora do pote, ela também começa esmurrar o vidro, tentando quebrá-lo para libertar Adapa, quando de repente, a pele do Lulu Amelu começa a dissolver, derretendo como cera exposta ao calor, ele urra de dor, apesar dela não escutá-lo. Neste momento, todas às vezes, ela finalmente acorda.
Ela sabe que precisa falar com alguém, falar sobre os Lulu Amelus, desabafar, antes que perca sua lucidez. Mas, falar com quem? Está proibida de comentar sobre este assunto com qualquer Anunnaki de Nibiru, e não tem confiança total em alguém que sabe, manteria segredo. O único em quem confiava era seu pai, que agora, estava morto. De repente, em meio ao suor de seu pesadelo, um nome lhe vem à cabeça.
- Sinsh! – Falou para si mesma.
Em um estalo, lembrou-se de Sinsh. Ela era uma das geneticistas que trabalhou para Nammu em Nippur. Não eram amigas, mas, de todos os seus comandados, era com a qual ficou mais próxima, a que se mostrava mais amiga e confidente. Mostrou ser de confiança para Nammu e, além do mais, era uma das poucas em Nibiru, que sabia de toda a verdade.
Sua casa fica em um agradável prédio-bairro próximo a capital, a qual comprou com o que recebeu trabalhando no projeto em Nippur.
Nammu resolveu ir até lá sem ser anunciada, mas não sabia se teria coragem de bater à porta. O taxi para em frente à casa de Sinsh. Nammu desce e fica parada tomando coragem, enquanto o taxi se distancia.
Por fim, depois de algum tempo, acha melhor desistir.
– Só devo estar cansada. Os sonhos devem ser só uma bobagem! – Fala para si mesma tentando se animar.
Não vai mais falar com Sinsh, não teria coragem, pareceria fraca. Nammu Vira as costas e vai saindo a pé, pensando em como está agindo como uma tola. Já havia dado alguns passos, quando alguém a chama:
- Doutora Nammu? – Nammu vira em direção à voz. É Sinsh, a geneticista que viera procurar – Que surpresa vê-la por aqui! – Fala Sinsh animadamente.
- Pois é... – responde Nammu, meio desconcertada.
- Não acredito que estava à frente de minha casa, e não iria me fazer uma visita!
- Na verdade eu vim para lhe ver, mas pensei que seria melhor avisar antes e...
- Que é isso, Doutora. O que fizemos juntas em Nippur nos dá o direito de nos visitarmos sem ter hora marcada. Por favor, entre! – Fala com um largo sorriso no rosto, apontando para porta de sua casa. Este sorriso sempre despertou a confiança de Nammu.
Dentro da casa, Sinsh serviu chá e biscoitos.
A simpatia de Sinsh sempre a fazia sentir melhor. Nammu não resistiu e, contou-lhe dos sonhos que andava tendo e de como isso a estava perturbando. Falou também, que precisava conversar com alguém sobre o que fizeram, precisava desabafar, contou ainda, da imensa vontade de revelar tudo aos Anunnakis, confessar seu pecado. Sentia que, se contasse, ficaria com sua consciência mais tranquila.
Quando terminou estava às lagrimas. Sinsh se aproximou e a abraçou fraternalmente.
- Mas Adapa está morto. Nós mesmas o enterramos e com muitas solenidades. – Falou Sinsh – Nós o amávamos, como um filho, mas, ele precisava viver pouco, você sabe disso!
- Eu sei! – Respondeu Nammu chorosa – Mas os sonhos podem estar querendo passar alguma mensagem. Não que Adapa esteja em perigo, mas, podem ser os outros Lulus. Será que eles estão sendo bem tratados? Será que estão cuidando deles como deveriam?
- Nammu, fique tranquila. Eu sei que, para você, eles são como filhos, e é normal uma mãe se preocupar. Já viu o noticiário? Eles sempre mostram imagens dos Lulus, diretamente de Nippur. Eles estão super felizes nos servindo e, estão sendo tratados conforme as regras que você escreveu. Está tudo bem!
- Sinsh, você entende o problema? Nós não podemos usá-los como nossos escravos, não é certo. Você sabe bem por que. Acho que todos os Anunnakis deveriam saber também, assim teríamos certeza de um bom tratamento a eles. Eles são mais do que todos pensam que são!
As duas conversaram por mais algum tempo. Sinsh sempre tentando acalmar Nammu, persuadi-la a não contar a verdade sobre os Lulus, alegando que prejudicaria a vida, não só dela, mas de muita gente. Gente que esteve envolvida neste projeto. No fundo, Nammu sabe que Sinsh tem razão. Não só a carreira de muita gente estaria arruinada, como a cadeia era certa para todos.
Em uma tentativa de animá-la, Sinsh começou a lembrar do dia em que aterrissaram em Nippur, das esperanças e receios que aquele momento lhes proporcionou.
Aquele dia ficaria marcado para sempre em suas vidas...
CAPÍTULO 68
Escondi-me, cuidadosamente, por entre os galhos da árvore que, sem querer, salvou minha vida. Através das folhas podia ver os motoqueiros olhando atentamente para o local do acidente, onde podiam ver claramente minha moto destruída. Um deles pegou um celular e fez uma ligação. Ouvi novamente o ronco dos motores de suas motos e percebi que estavam se distanciando, provavelmente, iriam arrumar uma forma de descer para encontrar meu corpo e as relíquias.
Não esperei para ver. Fui rastejando, agarrado ao tronco da árvore, em direção ao barranco. Meu pavor por altura se manifestou com força. A árvore balançava perigosamente além do risco de minhas mãos escorregarem, já que o lugar é bem úmido. Fui descendo vagarosamente pelo tronco inclinado. Mesmo sabendo que não devia, acabava o tempo todo olhando para baixo, a vertigem era terrível. Finalmente alcancei o barranco.
Existe uma saliência de mais ou menos uns 30 centímetros, que seguia para direita do barranco, a saliência possui uma inclinação ascendente pela qual esperava poder alcançar o topo. Com pequenos e cuidadosos passos para o lado, fui me deslocando pela saliência, que, para minha decepção, terminava antes de alcançar o alto do barranco.
Parei e fiquei estático, tentando decidir o que fazer e também, tentando evitar despencar da estreita saliência. Porém, meu tempo estava se esgotando. Ouvi ao longe um ronco singular. A princípio, pensei se tratar dos motoqueiros voltando, mas, prestando um pouco mais de atenção, vi que, podia ser ainda pior.
- Com certeza, é um helicóptero!
- Precisamos queimar este prédio! – Falou Nebo, apontando para onde ficava o EDEN.
- Mas ele tem uma historia para todos os Lulus! – Contestou Gilgamesh.
- Kalkal ordenou aos seus ajudantes que queimassem tudo após nos matar. – Afirmou Lizi.
- E depois, se alguém voltar aqui, encontrará os cadáveres dos Anunnakis. Saberão que continuamos vivos. – Completou Nebo.
- E eles continuarão caçando-os! – Concluiu Gilgamesh e completou com pesar – Vocês têm razão.
- E, além do mais, este não é o mais importante dos prédios para vocês. – Falou Nebo, deixando os dois perplexos.
- Como não, é o EDEN, onde vivíamos como um paraíso!
- Era só um dormitório. Tem outro prédio que certamente é mais importante, venham comigo, eu lhes mostro. – Chamou Nebo, que foi imediatamente atendido pelos dois.
Ele os levou a um prédio alguns metros de onde estavam. A porta estava trancada, mas Nebo conhecia a senha de acesso. Abriu à porta, um ar viciado saiu, com um odor que lembrava um hospital.
- Muito bem senhoras e senhores – Nebo fez um suspense –, preparem-se. Agora vocês irão conhecer “o verdadeiro circo dos horrores Anunnaki”!
Os dois acharam que fosse uma brincadeira de Nebo, mas, assim mesmo estavam curiosos.
- O que é este lugar Nebo? – Perguntou Lizi.
- Bem, foi aqui, neste lugar, que suas histórias começaram. – Ele valorizou o suspense – Aqui, meus amigos, é o laboratório onde seu espécime fora projetada e criada, pelas mãos da Doutora Nammu!
Agora a curiosidade atingiu um limite insustentável. O lugar onde os Lulu Amelus foram criados ainda existia e, estava ali, a um passo deles. Além de curiosos, estavam emocionados, afinal, não é todo dia que se encontra a oficina de seu criador, o local onde a sua história começa.
Nebo entrou, e foi seguido imediatamente pelos dois. Como em todos os ambientes públicos Anunnakis, as luzes acenderam automaticamente, e todos puderam ver um grande laboratório, com tudo o que se pode precisar em um. Havia mesas, tubos de ensaio, computadores, e diversos equipamentos que eles não reconheceram. Mas o que chamou a atenção dos dois foi uma grande estrutura, com dezenas de cilindros, de vidro pendurados. Todos conectados a uma grande coluna central através de várias mangueiras. Dentro do cilindro havia um liquido transparente, que não puderam identificar e, uma mangueira, boiando naquele liquido, com uma espécie de ventosa na ponta.
- Lizi, Gilgamesh. – Falou Nebo ainda tentando causar suspense – Esta estranha e enorme estrutura é chamada de “Arvore da Vida”. Aqui os primeiros embriões, eram inseridos, quando já estavam com alguns meses e, aqui permaneciam até o momento exato do nascimento.
- Isso é uma espécie de mãe artificial? – Perguntou Lizi, acariciando a própria barriga.
- É um útero artificial. Mas os fetos já têm que vir prontos, eles não são gerados ai dentro. Em Nibiru não é diferente. – Contou Nebo - As Anunnakis fêmeas não ficam mais com o feto dentro de suas barrigas até o final da gestação. Com dois meses o feto é transferido para “Arvore da Vida”, para terminar sua gestação. Segundo elas, desta forma, a gravidez não atrapalha sua vida, tanto pessoal como profissional.
- Mas, qual é a graça de ter um filho desta forma? – Perguntou Lizi.
- É mais seguro! – Respondeu Gilgamesh, que tem uma certa implicância com a forma tradicional de gravidez.
- Elas acompanham o desenvolvimento de perto. Existe “Arvore da Vida” individual, que fica na residência dos pais e as crianças são geradas em casa mesmo. É bom que se pode acompanhar o desenvolvimento do feto, é mais fácil até para o pré-natal, já que a arvore da vida tem equipamentos para monitoração da vida. Como Gilgamesh falou, é muito mais seguro, tanto para mãe quanto para o bebê.
- Mas, me diga uma coisa... – perguntou Gilgamesh – quem eram as mães que geravam os fetos nos primeiros meses?
- As próprias mães das crianças! – Respondeu Nebo - A gestação começa de maneira normal, do jeito natural. Quando atinge dois meses, é realizada uma espécie de aborto, mas com todo cuidado, e o feto é transferido para “Arvore da Vida” e, termina ali seu desenvolvimento.
- Isso eu entendi. – Falou Gilgamesh – O que eu quero saber é: quem foi a mãe, pelos dois meses iniciais, para os primeiros Lulu Amelus?
Nebo fez uma cara de duvida por alguns instantes, e finalmente respondeu:
- Sabe que eu nunca pensei nisso... realmente, eu não sei!
O passeio continuou pelo laboratório, Lizi e Gilgamesh olham tudo atentamente, enquanto Nebo explica tudo que sabe. Os dois estão impressionados por estarem no lugar onde foram projetados e criados, de forma artificial. Sempre souberam de sua artificialidade, mas, estar neste lugar, vendo os instrumentos e equipamentos que os criou, impressionava.
- Não estou entendendo uma coisa, Nebo – falou Gilgamesh –, porque você chamou este lugar de “o verdadeiro circo dos horrores Anunnaki”?
- Por quê? Simplesmente porque vocês ainda não viram a parte mais sinistra e mórbida deste lugar. – Respondeu Nebo – Um verdadeiro circo dos horrores. Venham comigo, mas preparem-se. A primeira vez que vi isto fiquei vários dias sem conseguir dormir.
Os dois o seguem e chegam a uma porta de aço no fim do prédio, também trancada com senha e, também Nebo sabia qual era.
Antes de entrar, Nebo perguntou a Lizi, se ela realmente queria ver, e advertiu que, em sua situação, não era aconselhável. Mas ela insistiu em ver. Nebo respirou profundamente, como se também precisasse criar coragem para ver aquilo novamente. Finalmente entram e, as luzes, como de praxe, automaticamente acendem.
A reação de ambos foi de extremo pânico. Lizi, rapidamente abraçou Nebo, encostando o rosto em seu peito para não mais ver aquela cena grotesca. Gilgamesh ficou imóvel, sem reação. De tudo que já presenciou até hoje, aquilo era de longe o mais assustador. Não continuaram seu tour pelo laboratório. Por unanimidade, decidiram sair, para se recomporem, o quanto podia ser possível, daquela visão aterradora.
Já fora do complexo, Nebo, falou:
- É, ou não é um circo dos horrores?
Ao que, Gilgamesh simplesmente responde:
- Cada vez odeio mais os Anunnakis!
CAPÍTULO 67
Se acreditasse em destino, diria que algo está me salvando para terminar a tradução das Tábuas de Nippur. Como não acredito, penso que tenho que tomar mais cuidado ou, terei uma vida muito curta.
Pendurada no barranco há uma solitária árvore, sobre a qual acabei caindo. Minha queda foi amenizada pelos seus galhos folhudos, e só sofri alguns arranhões, porém minha moto não teve a mesma sorte e se espatifou no chão abaixo. A árvore na qual estou agora, desesperadamente agarrado, balança perigosamente, a mim, parecia que suas raízes iriam soltar-se do barranco a qualquer momento. Abaixo podia ver o chão, a uns 20 metros. A queda a partir da árvore se não for fatal, pelo menos irá me causar muitas lesões.
Como nada está tão ruim que não possa piorar, comecei a ouvir o ronco de motores de motos e, sabia perfeitamente de quem eram.
Mais um dia de aula, a professora chega à sala, mas, estranhamente Adapa não está presente.
Um sentimento de surpresa se abateu, pois Adapa demonstrava gostar muito das aulas. Era extremamente curioso, sempre formulando muitas perguntas sobre todos os assuntos, mas principalmente sobre a história e a cultura dos Anunnakis o que, lhe parecia interessar muito. A professora decide falar com os geneticistas, e descobrir o motivo da falta de seu único aluno. Para sua surpresa, eles também não sabiam de Adapa, que deveria estar na aula.
Preocupados, foram eles, geneticistas e professora, procurá-lo em seus aposentos. A aflição começou a tomar conta de todos, pois Adapa também não estava lá. Procuraram pelo laboratório e nada – Adapa havia sumido!
Em pouco tempo a noticia do sumiço de Adapa se espalhou pelos poucos Anunnakis que formavam o embrião de cidade. A CPC noticiou, pedindo para que todos colaborassem com as buscas. Poucos já tinham visto Adapa, mas, certamente reconheceriam se o vissem.
Enquanto todos procuravam por Adapa, Nammu desconfiou de algo que fez com que ficasse ainda mais preocupada. Um pensamento ruim lhe veio à cabeça. Se havia alguém que poderia lhe fazer algum mal, este alguém era Anzu. Ela era testemunha da aversão de Anzu pela criação do Lulu Amelu, não faria sentido matá-lo, pois outros estavam sendo criados, e ele sabia disso, mas para atingi-la, ele bem que seria capaz. Nammu não perdeu tempo e foi imediatamente procurar Anzu em seu alojamento.
- Onde está ele? – Falou Nammu furiosamente, entrando sem bater no quarto de Anzu.
- Ele quem? – Perguntou Anzu com cara de desentendido.
- Adapa. O que você fez com Adapa?
- O que eu faria com Adapa?
- Você sempre foi contra a sua criação, de todos neste planeta, você é o único com motivos para matá-lo!
Anzu deu uma enorme risada de desdém.
- Venha comigo, estressadinha! – Falou calmamente Anzu, largando o livro que estava lendo e levantando em direção à porta.
Os dois saíram da área de alojamento e se dirigiram ao prédio onde estava o CPD, local de trabalho de Nebo. Anzu abriu a porta, e apontou. Nammu teve uma surpresa enorme. Levou suas mãos a boca e disse espantada:
- O que está acontecendo aqui?
Várias emoções tomaram conta de Nammu ao mesmo tempo. Um misto de alivio, alegria, com uma pitada de raiva e, principalmente, um enorme orgulho. Estavam a sua frente Nebo e Adapa jogando vídeo-game. A raiva que sentia por Adapa não a ter avisado, sumiu frente ao orgulho que ela estava sentindo. Sua criação apresentou o mesmo comportamento que um adolescente Anunnaki comum, com suas necessidades de fuga, e seu ímpeto para sair da rotina, fazer o que realmente sentia vontade, ir contra as regras.
- Ele é ótimo! – Falou alegremente Nebo olhando fixamente para o jogo – Não havia encontrado ninguém neste planeta que fosse páreo, Adapa é muito bom...
- E foi assim que conheci Adapa, o primeiro Lulu Amelu, criado em laboratório, pela Doutora Nammu. – Termina Nebo a sua história – Ele foi um grande Lulu Amelu. Depois disso, jogamos varias vezes juntos.
- E o que aconteceu com ele? – Perguntou Gilgamesh.
- Ele morreu!
- Está vendo! – Falou empolgado Gilgamesh, apontando com o dedo para Nebo - Isso que não faz sentido. Se ela o amava como uma mãe, porque o criou mortal? Porque não o criou imune as doenças, e as dores? Porque não foi assim para todos os Lulu Amelus? Isso não faz o menor sentido...
- Eu concordo com você, mas, deve haver um bom motivo – concluiu Nebo – e... somente Nammu poderá explicar qual é!
Já de volta ao seu apartamento, Nammu, ainda está perplexa com o ocorrido. Sabia que o Chanceler a iria monitorar de perto, e por isso mesmo, ficou profissionalmente inativa por um bom tempo. Mas precisava trabalhar, ocupar sua mente. Sentir-se útil.
Preparou um chá e deitou-se em sua poltrona preferida. Sua caninea Bell deitou ao seu lado, pedindo carinho e, foi atendida com prazer por Nammu. Lembrou-se do dia em que retornou a Nibiru, logo após a criação dos Lulu Amelus.
A espaçonave de transportes de passageiros pousa no espaço porto de Nibiru, Nammu está a bordo. As portas se abrem lentamente, e a expectativa de todos aumenta. Lá fora as famílias esperam ansiosas pelos seus, que ficaram fora por pelo menos dois anos de Nibiru, trabalhando no gelado planeta Nippur.
Nammu não tem esta expectativa. Sabe que não haverá ninguém a esperando. Seu pai era seu último parente, e agora, estava morto, morreu em um horrível acidente. Ela vai até a porta, olha para o céu. Já estava com saudades deste incrível céu amarelo ouro, não havia sol – não há sol em Nibiru. A temperatura esta amena para os padrões de Nibiru, apenas 34 graus, mas bem melhor que a temperatura média de Nippur.
O que ela não imaginava era que estava sim sendo esperada.
Uma multidão de repórteres a aguardava e, tão logo ela desceu da espaçonave, foi assediada por todos os lados. Todos estavam ansiosos por noticias, todos queriam saber sobre os trabalhadores primitivos. Nammu não conseguiu dar nenhum passo, estava cercada por repórteres ávidos por uma boa matéria, ela ficou estática, não imaginava esta recepção, e não sabia como livrar-se deles.
Seu apuro em meio aos repórteres foi resolvido pela guarda real, que por meio de sua habitual truculência, afastou os repórteres e formou uma barreira Anunnaki em torno de Nammu, que foi então escoltada a um veiculo previamente preparado para levá-la.
- Preciso pegar minha bagagem e minha caninea! – Gritou para o motorista já dentro do veículo.
- Acalme-se senhora - responde o motorista -, suas coisa serão entregues no hotel!
- Eu não vou para nenhum hotel. Vou para minha casa!
- infelizmente não será possível, sua casa está cercada de repórteres e de curiosos. Precisamos preservá-la.
Os protestos de Nammu foram formalmente ignorados pelo motorista, que também era membro da guarda real, por isso, bem treinado. Ele a levou por um caminho longo que passava pelo centro da cidade, informou que seu destino era um hotel afastado do centro, longe da imprensa e dos curiosos.
Durante o trajeto, Nammu foi observando a cidade, parecia tudo igual, nada havia mudado. O transito, as pessoas apressadas, pedintes... - Nibiru nunca muda – pensou consigo mesma.
- Chegamos Senhora. – Falou o motorista, tirando Nammu de seus pensamentos – O hotel é aqui!
Levou algum tempo para que a coisas de Nammu fossem entregues, sua preocupação maior era com Bell, na verdade não era sua Bell original, a qual ela havia levado para Nippur, mas um clone dela. Era costume entre os Anunnakis repetir o mesmo nome para os filhotes de seus canineus. Desta forma sentiam menos a sua morte, já que o tempo de vida dos pobres animais era insignificante.
Como Geneticista, Nammu sabia quão simples era criar um canineus imortal, assim como eles, mas não podia. Por isso criaram paliativos, como o uso do mesmo nome para toda uma geração de animais de estimação. Desta forma, sentiam menos a perca da mascote querida.
Não muito depois de receber suas bagagens, a portaria do hotel a informa que tem uma visita a esperando. É o assessor pessoal do Chanceler Enlil. Nammu estranhou a visita e, pelo que conhecia do Chanceler, não era uma visita de boas vindas.
- Como vai doutora? – Cumprimentou efusivamente o assessor.
- Estaria melhor se estivesse em minha casa! – Respondeu secamente Nammu.
- Esta foi uma medida para seu próprio bem estar, agora você é famosa doutora!
- A que devo a sua visita? – Falou Nammu, tentando encurtar a conversa.
- Bem – começou o assessor -, vim em nome do Chanceler, para reiterar o acordo firmado em Nippur.
- Sou uma pessoa de palavra, pode tranquilizar seu patrão. O trato está mantido!
Nammu sabia que seria a maior prejudicada se falasse algo. O que fez em Nippur feria a severa lei ambiental, escrita e sancionada pelo Rei Anun logo após sua posse, após salvar toda vida de Nibiru de uma hecatombe quase certa.
Somente por uma desconfiança, o próprio Rei Anu, filho de Anun, teve o trabalho de ir pessoalmente à Nippur para destituir o Chanceler de seu cargo, e prende-lo. Mas, graças a sua lábia conseguiu convencer o Rei da necessidade do que fizeram. Certamente omitiu muitos detalhes, se não fosse assim, não teriam perdão, e Enlil, Nammu e toda sua equipe, estariam agora presos, aguardando uma provável pena de morte na prisão de Charak.
Este é, certamente, o medo do Chanceler, medo que Nammu não consiga se conter e revelasse toda verdade. Uma verdade perigosa, principalmente, para os envolvidos na criação dos trabalhadores primitivos, na criação dos Lulu Amelus.
CAPÍTULO 66
Já faz muitos anos, mas ainda lembro-me dos principais macetes para pilotar uma moto na trilha. Deve ser como andar de bicicleta, a gente nunca esquece. Isso foi bastante útil nesta hora, apesar de não conhecer o caminho, ainda assim consegui abrir certa distância dos outros dois motoqueiros. Mesmo sem vê-los em meu retrovisor, decidi não parar e seguir até o final da trilha. Precisava escapar.
Minha intenção era, ao sair da trilha, seguir para a cidade mais próxima e esconder-me, esperando a poeira baixar para, novamente fazer com que percam minha pista.
A picada na mata é bem estreita e muito úmida, provavelmente nunca uma moto passara por ali. Mesmo assim eu estava mantendo uma boa velocidade, para falar a verdade, não fosse o risco de ser capturado, diria que estava me divertindo. Começava a pensar no porque parei de praticar este esporte.
Minha diversão, porém, durou somente mais alguns quilômetros, logo descobri, e da pior forma possível do porquê de não passar moto por aquela trilha. Simplesmente, porque, subitamente a trilha acaba, dando lugar a um enorme precipício.
Quando dei conta, já estava a poucos metros da borda. Ainda tentei frear, mas os pneus da moto deslizaram na trilha úmida. Em instantes estávamos, moto e eu, no ar, sentindo toda eficácia que a lei da gravidade pode proporcionar.
Aqui, na sua frente, está o jardim do EDEN.
Falou Nebo estendendo o braço, apontando em direção ao prédio que haviam acabado de sair.
- Aqui? Mas é só um dormitório! – Respondeu Gilgamesh, com dúvidas.
Na verdade, um grande dormitório abandonado há muito tempo. Havia muitas camas quebradas, colchões rasgados, portas arrancadas. Não tinha nada de “paraíso”, como os Lulus haviam mencionado. Parecia mais um alojamento e, estava abandonado há muitos anos.
– Você tem certeza Nebo?
- Sim, eu já trabalhava aqui em Nippur, naquele tempo. Toda esta estrutura fora criada para receber os Trabalhadores Primitivos. Aqui em volta havia um lindo jardim com plantas nativas, com parquinhos para os pequenos Lulus brincar, por isso era chamado de “jardim do EDEN”. Tudo era muito bonito, bem cuidado. Era muito melhor que os alojamentos dos Anunnakis, por isso provocou a sua inveja. Nammu planejou tudo com muito carinho...
- Quem planejou? – Interrompeu Gilgamesh afoito.
- Nammu! – Respondeu Nebo meio sem entender a reação de Gilgamesh.
- Você sabe o que é Nammu? – Falou desesperado Gilgamesh segurando Nebo pelo colarinho.
- Não é “o que é”, mas sim “quem é” Nammu! – Respondeu Nebo retirando as mãos de Gilgamesh de seu colarinho.
O coração de Gilgamesh deu um salto. Finalmente alguém que conheceu Nammu, e alguém que ele conhecia. Neste momento a visão que teve de sua mãe ficou ainda mais clara “Encontre os amigos”.
Justamente os poucos amigos que fez, sabiam da resposta, agora, tinha certeza de que precisava perdoar Enki. Mas, para isso, precisava primeiro encontrá-lo.
Era seu primeiro dia de aula.
A sala estava lotada, com certeza havia mais que simples alunos, todos queriam saber de sua aventura, saber sobre Nippur, e principalmente sobre os Lulus.
Tudo o que os Anunnakis sabiam sobre este assunto foi passado pela grandiosa propaganda do Chanceler, que possuía uma equipe de marketing somente para passar as “boas novas” para os Anunnakis que ficaram em Nibiru. Sua intenção era arrebanhar mais moradores para Nippur e, graças a esta propaganda, estava conseguindo. Inacreditavelmente, havia filas de espera para os interessados em morar no gelado planeta.
Nammu foi personagem principal em todo este processo, afinal, ela é a “mãe” do principal motivo que convencia os Anunnakis a mudar-se para Nippur, os Lulus. Ela era, agora, uma espécie de heroína de seu povo, uma jovem geneticista, que, longe da tecnologia de seu mundo e em curtíssimo espaço de tempo, criou um ser tão maravilhoso, que tirou todo o fardo de trabalhos pesados das costas dos Anunnakis, que agora poderiam levar uma vida confortável e fazer apenas o que tiverem vontade.
Isso pela propaganda do Chanceler, e ao menos em Nippur, já que os Lulus são proibidos, graças à lei ambiental, de serem importados para Nibiru.
A principio Nammu hesitou em aceitar o convite para lecionar genética na maior universidade de Nibiru, a mesma em que havia se formado. Sua vontade era escrever um livro contando tudo sobre o que fez em Nippur, toda a sórdida verdade, verdade que a consumia, com certeza seria um Best-seller. Mas, ela não estava interessada no dinheiro, queria apenas desabafar, contar a todos a verdade, mas, isso não era possível, ao menos, não por enquanto. Precisava mesmo era achar uma ocupação, pois, continuando desocupada, sabia que sua sanidade estaria comprometida.
A falta de seu pai, acumulado com o peso na consciência pelo que fez em Nippur a estavam jogando em um abismo perigoso, e muitas vezes sem volta, o abismo da depressão.
Precisava ocupar sua mente.
Ensinar aos mais novos além de gratificante, a manteria ocupada.
Tomou fôlego, falar em público sempre a deixava tensa, e começou a apresentar-se, apenas por formalidade, afinal de consta, era famosa. Infelizmente não pôde prosseguir com sua aula, vários Anunnakis levantavam avidamente suas mãos questionando-a sobre os Lulus. Certamente não eram alunos.
Nammu se vê sem ação, sabia que haveria questionamentos por parte dos alunos, e para estes estava preparada, mas não esperava que repórteres estivessem infiltrados, e eles sim sabem como levantar as informações que não devem ser reveladas.
Neste instante um Anunnaki bem vestido entra na sala e a retira confusão. Como se estivesse em transe por toda esta situação, ela é levada pelo Anunnaki, sem impor resistência, á sala do reitor, na qual entram, sem serem anunciados e o Anunnaki bem vestido, já sai falando:
- Isto é um absurdo, quem permitiu a entrada de repórteres?
- Quem é você? – Pergunta o reitor levantando-se de sua mesa – O que houve?
- Estou aqui em nome do Chanceler de Nippur. Enlil. Minha função é preservar a integridade da Doutora Nammu, uma grande cientista que mudou para sempre a colonização de Nippur e a retirada do precioso minério, tão necessário à vida em Nibiru. Ela não deve ser exposta e este constrangimento!
Nammu ficou perplexa, não sabia que Enlil enviara um guarda-costas para “preservá-la”, nem aceitaria se soubesse, mesmo que estivesse agradecida por tirá-la daquela sala.
- Eu cuido da minha vida! – Gritou Nammu, interrompendo a discussão dos dois – Avise ao seu patrão que pode ficar sossegado, desde que, deixe-me viver em paz!
- O que está havendo aqui? – Perguntou perplexo o reitor.
- Este assunto não é do seu interesse senhor reitor. – Respondeu rispidamente o “protetor de Nammu” – O que é de seu interesse, é que, a Doutora Nammu não irá mais lecionar em sua instituição!
- Vou sim. - Gritou furiosa Nammu - Quem é você para falar o que devo ou não fazer?
- Muito bem – falou calmamente o enviado do Chanceler –, não podemos mandar em sua vida doutora. Poderá continuar com as aulas se esta é a sua vontade, porém, caso surja mais algum repórter infiltrado em sua aula, o Chanceler responsabilizará pessoalmente o senhor reitor, que arcará, seriamente, com as consequências!
- Você nunca me falou que conhecia Nammu! – Falou Gilgamesh a Nebo.
- Você nunca perguntou. Sempre falava de sua busca pela imortalidade, mas nunca falou que procurava a Doutora Nammu.
- É... eu soube dela depois de sair de sua casa... – falou Gilgamesh pensativo – Doutora Nammu você falou? Mas afinal, quem é Nammu?
- Nammu é uma grande Engenheira genética em Nibiru, foi ela quem desenvolveu seu espécime, em um laboratório que, aliás, ficava aqui próximo. – Nebo apontou em uma direção – Conheci o primeiro de vocês, seu nome era Adapa. Apesar de seu nascimento ter sido noticiado com alarde pela CPC, como uma nova fase na colonização de Nippur, foi um projeto altamente secreto, tanto sua criação, como seu desenvolvimento e amadurecimento. Mas, um dia, sem querer, acabei conhecendo-o, antes que os demais Anunnakis.
E, este dia, ficará marcado para sempre em minha memória!
CAPÍTULO 65
Isso era tudo que eu não esperava. Uma barreira policial naquela estrada deserta, não fazia o menor sentido. Não é próxima a fronteira, nem tem nada que possa interessar a justiça. Somente mata. Mas, era mais que uma simples barreira. Pude reparar a presença de uma caminhonete preta, que já havia visto antes, conheci, inclusive, seu espaçoso porta-malas e, atrás desta, alguns rostos conhecidos.
Eram meus perseguidores.
Não pensei duas vezes e, virei, praticamente sem frear, a moto em direção a uma lavoura. Parecia ser plantação de soja ou algo assim. Acelerei o máximo que consegui. Imediatamente, meus perseguidores entraram em sua caminhonete preta e me seguiram pela lavoura. Surgiram também, não sei de onde, duas motos. Apenas os policiais não entraram na perseguição, devem estar querendo poupar a plantação.
A caminhonete é muito potente e rapidamente se aproximava de minha moto, que, apesar de estar acelerando o que posso, não desenvolve o suficiente, graças à fofa terra da plantação. Pelo retrovisor via o pára-choque da caminhonete crescer, cada vez mais perto. As motos estavam com a mesma dificuldade que eu, e se distanciaram um pouco.
A minha frente há uma mata, minha esperança é alcançá-la. Assim posso despistar a caminhonete. A mata não está longe, mas, naquele momento, parecia inalcançável. A cada olhada no retrovisor, mais perto a caminhonete preta estava. Agora já posso sentir o calor de seu motor, ela está a ponto de bater no pára-lama traseiro de minha moto. Pelo retrovisor, vejo que já não há mais espaço entre os dois veículos.
Estavam prestes a bater em mim com a caminhonete, quando, finalmente, consegui entrar na mata. Havia uma picada, talvez usada pelos trabalhadores, e eu segui com a moto por ela. A caminhonete parou, não conseguia entrar, mas, as duas motos conseguiam e, entraram logo atrás de mim.
Agora, era com as motos que precisava me preocupar.
Havia um sorriso sádico nos rostos dos dois ajudantes de Kalkal, nitidamente, estavam se divertindo com a situação.
- Com qual devemos começar? – Perguntou um deles.
- Vamos começar pelo mais fraco, quem sabe o mais forte reaja, e nos dê mais diversão. – Respondeu o segundo.
- Começaremos com ela, então!
- Não. – Contestou o outro - O mais fraco de todos... é o bebê! – Os dois riram, prazerosamente, com a idéia.
- Ótima idéia. Vamos removê-lo da barriga. Mas com cuidado, sem matar a mãe.
Lizi e Nebo gritavam em desespero, implorando em vão, por piedade. Não havia clemência na dupla, que preparou uma faca bem afiada, e foram em direção à Lizi, que estava nua.
Um dos carrascos foi aproximando a faca da enorme barriga de Lizi, que se debatia, tentando a todo custo, salvar-se.
- Não consigo! – Falou o Anunnaki – Ela não para quieta!
- Deixe comigo!
O outro foi por traz de Lizi e a segurou, deixando-a imóvel para a cirurgia sem anestesia a qual seria submetida. Nebo gritava e se debatia, era só o que podia fazer.
– Vai agora! – Ordenou o que estava segurando Lizi.
E ele foi. Aproximou com prazer a faca, e preparou-se para realizar o corte.
Logo, um jato de sangue lava o corpo de Lizi, manchando até o Anunnaki que a segurava. Estranhamente ela não sente dor.
O Anunnaki com a faca fica estático diante dela. Observando com cuidado, ela nota que a cabeça dele, começa a tombar para o lado, se desprendendo do resto do corpo, tornando visível um grande corte em sua garganta. Um jato de sangue esguicha de sua jugular. Finalmente, o corpo do Anunnaki tomba morto, no chão.
Lizi grita, o Anunnaki que a segurava, também grita e a larga. Puxa de sua arma e, assustado, saiu, olhando para todos os lados.
– Quem está ai? – Grita o assustado Anunnaki, mas, não obtém resposta.
Um pedaço de um dos móveis do antigo prédio o atinge. Ele começa a atirar, para todos os lados
– Pare com esta brincadeira! – Realmente o Anunnaki está com muito medo.
- Matar covardes é bem mais divertido, não é? – Fala uma voz, mas não havia ninguém.
Mais um pedaço de móvel, é arremessado. Desta vez arranca a arma da mão do Anunnaki, que começa a implorar por socorro.
Algo atinge suas pernas e, ele vai ao chão. Imediatamente, sai, arrastando-se com suas mãos em direção à porta, gritando em pânico. Um chute em suas costelas o faz cair de costas no chão, foi quando vê um grande pedaço de ferro, pontudo, vindo em sua direção, e entrando com força em seu peito. O Anunnaki geme de dor.
Agora pode ver, segurando a outra extremidade do pedaço de ferro, um hibrido, que, com ódio no olhar fala:
- Olhe para mim covarde, pois será a última coisa que verá! – E, enfia o máximo que pode o ferro no peito do Anunnaki que solta um último gemido e, tomba morto.
Gilgamesh vai em direção à Lizi e começa a desamarrá-la, enquanto pergunta.
- Você está bem?
Mas ela não responde. Gilgamesh já sabe o porquê. Lizi esta com a mesma expressão de Agnish. Quando Lizi estava solta, Gilgamesh correu e soltou Nebo, que suplicante agradeceu, chorando incontrolavelmente.
- Aqui está, Senhor! – Fala Kalkal orgulhoso, ao entregar o cristal com a gravação ao Chanceler – E os dois estão mortos!
- Sabia que não me decepcionaria. – Respondeu o Chanceler.
- Desculpe a modéstia, Senhor, mas na verdade, foi bastante fácil. O informático deixou muitas pistas de sua localização.
- Matou todos que sabiam?
- Somente os dois sabiam!
- Você tem certeza disso?
- Pode ficar tranqüilo – falou Kalkal orgulhoso -, se mais alguém soubesse, eles me contariam. Pode ter certeza!
Já recompostos do susto, os três conversam do lado de fora do prédio, onde jazem os dois Anunnakis mortos. Lizi ainda está abalada pelas mortes.
- O que está fazendo por aqui, Gilgamesh? – Pergunta Nebo, abraçando a inconsolável Lizi.
- Ainda atrás de minha busca. – Respondeu – Você está bem Lizi?
- Sim! – Respondeu com expressão de vazio em seu olhar.
- Eu entendo! – Falou Gilgamesh lembrando-se de Agnish, e sua reação quanto à morte do Anunnaki que tentou violentá-la.
- Mas atrás de sua busca aqui? Nesta base abandonada?
- Encontrei um grupo de Lulus, que me falaram do EDEN, um lugar maravilhoso, onde os Lulus ficaram quando foram criados. Mostraram-me a direção para chegar e, acabei vindo parar aqui. Quando ouvi gritos, e resolvi ver o que era!
- Que sorte a nossa, muito obrigado, de novo. – Insistiu Nebo, abraçando Gilgamesh tão forte que o fez gemer.
- Não precisa agradecer, sempre é bom acabar com estes Anunnakis covardes. – Nesta hora, ele lembrou que Nebo também é um Anunnaki, e tentou remediar – Quer dizer... nem todos o são... bem...
- Não se preocupe, eu entendi. – Depois do que Gilgamesh fez por eles, Nebo não se ofenderia nem se Gilgamesh falasse mal de sua própria mãe.
- Agora que vocês estão bem, vou continuar minha procura.
- Não precisa mais! – Falou Nebo.
- Porque não? – Perguntou Gilgamesh.
- Você não está procurando o EDEN? O jardim do EDEN?
- Sim! – Respondeu Gilgamesh – Os Lulus com quem falei, disseram que ficava nesta direção.
- Então, pode encerrar sua procura, meu amigo. – Nebo fez uma parada teatral, e virando-se para o barracão onde os estão os dois Anunnakis mortos, falou - Gilgamesh, eu lhe apresento... o jardim do EDEN!
