CAPÍTULO 40

O invasor se aloja no corpo hospedeiro.
O ataque é silencioso. Durante algum tempo, o hospedeiro sequer saberá que está sendo atacado, o invasor possui mecanismos que neutralizam o sistema de defesa do organismo hospedeiro. O invasor começa a se desenvolver, com o tempo o hospedeiro começará a sentir os efeitos, náuseas, enjôos, variação de humor... quando o hospedeiro se der conta do ataque, o invasor já estará praticamente formado, restando apenas crescer.
Em pouco tempo, a invasão ficará clara. O aumento do abdômen é constante, trazendo muito desconforto e dor ao hospedeiro. O invasor é implacável. Alimenta-se dos nutrientes existentes no sangue do hospedeiro, como um verdadeiro parasita. Isso exigirá uma maior ingestão de nutrientes por parte do hospedeiro, para manter os dois, invasor e hospedeiro vivos.
Mas, o pior ainda está por vir.
Quando atingir a maturação ideal, o invasor sairá, de forma violenta, do corpo do hospedeiro. Este é um momento crítico, que, muitas vezes, resulta na morte do hospedeiro, e até de ambos. A dor que o hospedeiro sente neste momento é extremamente forte, chegando quase a níveis insuportáveis. A saída pode demorar horas, há muito sofrimento para o hospedeiro.
Se o hospedeiro sobreviver à saída do invasor, ainda assim, estará ligado a ele até o final de sua vida. Durante ainda, algum tempo, o invasor irá se alimentar do sangue do hospedeiro, que sairá de seu corpo na forma de um liquido branco e nutritivo. Mesmo sem saber o porquê, haverá uma simbiose, entre os dois, e o hospedeiro estará sempre disposto a dar a sua vida pela do invasor, cuidará dele até o final de sua própria vida, mesmo quando o invasor não achar mais necessário, quando souber, com absoluta certeza, que pode se manter sem a ajuda do hospedeiro.
Gilgamesh termina sua divagação sobre a forma de reprodução sexuada, utilizada em larga escala pelos seres mais evoluídos de Nippur, com a seguinte dúvida:
- O que diria uma forma alienígena de vida que se utilizasse de outra forma de reprodução ao ver a nossa?
Para nós, é uma forma natural, mas que, se olhada de fora, se mostra certamente, como uma forma de reprodução bastante cruel, e falha, que nos traz apenas o alento, de estarmos passando adiante nossos genes e, desta forma, nos imortalizando.

***

A cadeia de Nippur é bastante pequena, e vazia.
O Chanceler costuma absolver muitos dos crimes cometidos em Nippur, afinal, de todos os Anunnakis que vieram para este gelado planeta, poucos podem ser considerados, Anunnakis de bem. A grande maioria, ou terminara de cumprir uma pena por alguma contravenção, e estava procurando uma oportunidade em Nippur, ou estava fugindo ilegalmente para se livrar de ser severamente punido pelas leis de Nibiru. Para estes, Nippur é o lugar ideal para viver.
A minoria dos Anunnakis residentes em Nippur é composta por cientistas que estão estudando o planeta, quer seja por curiosidade cientifica, quer seja para encontrar uma forma de salvar o seu próprio planeta de uma iminente destruição.
Enki não conseguia acreditar no que aconteceu, estava passando por impostor e, quem tentou matá-lo estava livre, esta é uma situação que, até mesmo partindo de seu irmão, era inconcebível. Mas, o que mais o preocupa, no entanto, é a situação de seu filho e de Gil, que ficaram com os kerabulus.
O relacionamento amoroso que Enki teve com Ninsun, foi maravilhoso, apesar de curto. Ele aprendeu a amá-la e, a forma como acabou, foi abrupta e muito dolorosa. Por um bom tempo eles viveram felizes, juntamente com Gil, tanto que Enki nem pensava mais em voltar para cidade, voltar para Eridu. De todos os anos que já viveu, foi, com certeza, o período em que foi mais feliz. Infelizmente para eles, foram inconsequentes e, o inevitável aconteceu. Ninsun engravidou.
O período de gravidez correu sem problemas, porém, o mesmo não se pode dizer do parto. O bebê era muito grande e, sem recursos tecnológicos para auxiliar, nem todo conhecimento das parteiras kerabulus foi suficientes para salvá-la.
Ninsun morreu no parto.
O bebê sobreviveu e, seu pai, desolado, prometeu a si mesmo acabar com todo este sofrimento dos Lulu Amelus, e a única forma, seria retornar para Eridu. Porém Enki sabia que não poderia levar seu filho e Gilgamesh junto com ele, já que são híbridos, certamente iriam matá-los no que chegassem à cidade.
Com o coração partido os entregou, temporariamente, aos cuidados dos kerabulus, e foi para a cidade tentar mudar toda esta situação. Em sua cabeça, pensou que seria um período curto, achou que conseguiria apoio de seu irmão, e que, em muito breve, poderia voltar para buscá-los e até, quiçá, levá-los para Nibiru, onde poderiam ter uma educação decente, no estilo Anunnaki.
Infelizmente, não contava com esta atitude de seu irmão, o Chanceler Enlil.
Agora estava preso e seu filho, juntamente com Gilgamesh, correndo risco de serem encontrados, e certamente, mortos pelo racismo Anunnaki, enquanto ele está preso, impossibilitado de fazer alguma coisa, sozinho, com a angustia que só o sentimento de impotência pode proporcionar.

***

O dia estava indo embora, e com ele, Gilgamesh também retornaria para os kerabulus. Estava envergonhado de si mesmo. - Como podia ter tanto medo da cidade? – se perguntava. Lembrando das orientações de sua falecida mãe, voltaria à noite, era mais difícil de ser localizado pelos Anunnakis. Passou o dia todo escondido e, agora que estava escuro, iria embora.
Definiu seu trajeto passando por um belo bosque próximo, onde havia um rio com água potável. Iria encher seu cantil de couro para viagem. No entanto, ao chegar próximo a uma clareira, viu algo que o fez parar. Imediatamente escondeu-se e ficou imóvel, procurando a todo custo, não ser visto.
A cena que se desenrolava a sua frente, porém, era terrível, brutal, algo que deixou Gilgamesh realmente atônito, pasmo, chocado.