CAPÍTULO 42

Gilgamesh e a jovem Lulu seguiram por uma grande lavoura.
Apesar de ser noite, Gilgamesh perceber que a grande plantação é de uma planta diferente, uma espécie que ele nunca havia visto. Viu ao longe um grande galpão, e ouviu a aproximação de um animal que também não conhecia.
- Este é um canineu. – Falou a Lulu em voz baixa – Muito bem garoto, ele é amigo! – Falou ela para o canineu.
- Já ouvi falar deste espécime. – Respondeu, também em voz baixa, Gilgamesh.
Dentro do galpão havia muitos outros Lulus, que se levantaram assustados com a estranha presença. A jovem Lulu explicou a todos o que aconteceu e, Gilgamesh foi recebido como amigo por todos, que agradeceram pelo que fez. Trouxeram-lhe daquele estranho vegetal, da grande lavoura, o qual ele gostou muito. Explicaram que era uma planta que os Anunnakis trouxeram de seu planeta natal, portanto, alienígena em Nippur, seu nome era Zea Mays. A planta é artificial, geneticamente criada, com os grãos dispostos em espigas, o que tornava muito difícil sua evolução espontânea na natureza.
Apesar de acolhedores, Gilgamesh sentiu muita tristeza naquele povo e, não era só pela escravidão, havia uma tristeza maior, uma comoção entre todos.
- O que está havendo? - Perguntou Gilgamesh a Lulu que ele havia salvado – Sinto muita tristeza em vocês.
- Nossa vida já não é feliz normalmente, mas amanhã será especialmente triste. – Respondeu – Vê aquele ancião junto com aquelas crianças? Amanhã ele será tirado de nós.
– Como assim, tirado de vocês?
- Quando os Lulu Amelus foram criados, foram deixadas pelos cientistas uma séria de normas e regras de como deveríamos ser tratados. – Começou a jovem Lulu – Uma destas regras fala sobre os velhos. Ela diz que, os Lulus que ficarem velhos, devem realizar apenas tarefas leves, de supervisão, repassando seus conhecimentos aos mais jovens. Porém, após a partida deles, isso ficou só na teoria, os velhos foram submetidos aos mesmos trabalhos forçados que os mais jovens, mas, devido a serem mais fracos, não conseguem desempenhar as tarefas pesadas a contento e, acabam não agradando os Anunnakis.
Críticas surgiram, porque a vida de um Lulu, comparando com a vida dos Anunnakis, é extremamente curta, e havia todo um investimento em treinamento para o trabalho.
Para satisfazer o apelo popular, o governo (no caso o Chanceler), adotou uma medida de incentivo. Os Anunnakis poderiam entregar seus Lulus obsoletos como parte de pagamento na aquisição de um Lulu novo, e o governo realizaria o sacrifício dos velhos Lulus. A medida foi encarada com entusiasmo pelos Anunnakis porque, alem de receberem o incentivo na compra de novos e fortes escravos, ainda ficariam com a consciência limpa, já que o governo prometia uma morte rápida e indolor aos escravos inúteis.
- Logicamente, este entusiasmo não foi compartilhado por nós, os Lulus. – Continuou a jovem - Cada idoso que é retirado do nosso convívio traz sempre muita dor e sofrimento a todos. Respeitamos muito os mais velhos, porque são sábios, tem uma experiência de vida inigualável, que é passada aos mais jovens através de suas incríveis histórias e conselhos. Mas, como não temos voz ativa, na verdade, se dependesse dos Anunnakis, nem voz precisaríamos ter, somos obrigados a entregá-los, como gados para o abate.
- Isso é um absurdo! – Respondeu Gilgamesh indignado – E toda a vivencia deles, será perdida... para sempre?
Ele já considerava a morte, mesmo que natural, uma completa insensatez. Perder todo conhecimento adquirido, muitas vezes a duras penas, experiências de vida, amores, ódios, todos os sentimentos, simplesmente sumindo no espaço, para sempre, é incompreensível. Agora a morte dos Lulus seria antecipada em vários anos, somente porque lhes faltavam forças para os trabalhos pesados. É insano, pungente, covarde.
A jovem Lulu não falou nada, simplesmente acenou, tristemente, com a cabeça, concordando. Gilgamesh foi para próximo ao ancião, e o ouviu falando aos pequenos, que não deveriam sentir saudades, que seria melhor assim, que já viveram o suficiente... mas, ele pode ler, claramente, em seus pensamentos a tristeza e o medo que o pobre velho estava sentindo. Ele não queria morrer.
Isso comoveu Gilgamesh, mais do que, jamais havia sentido em toda sua vida. Podia sentir também a profunda tristeza de todos ao saber que perderiam um grande Lulu, que passava a todos, sábios conselhos e muito amor. Também observou alguns Lulus machucados, alguns por terem apanhados dos Anunnakis e outros que se feriram na execução de suas funções.
Nada disso fazia sentido para Gilgamesh. Durante toda sua vida, até agora, fora feliz, sem jamais ter contato com todo este sofrimento. Ele não conseguia compreender toda esta dor. Estar vivo deveria ser “estar feliz”, aproveitar todos os seus dias, como se fosse o último, e, viver o máximo que fosse possível. A morte natural, já não faz sentido, a morte antecipada, como a que iria passar este senhor, era inconcebível. Toda esta dor era inconcebível, viver, não devia ser assim.
Seus pensamentos foram interrompidos por um pergunta do ancião.
- Quem é você, jovem estranho?
- Sou Gilgamesh!
- Isso nós sabemos, você já falou. Você não é um Lulu, tão pouco é um Anunnaki Quem é você?
- Minha mãe era uma Lulu e, meu pai, um Anunnaki.
- Então você é um hibrido. Parece-me improvável, já que, os híbridos são mortos, antes mesmo de nascer.
- Minha mãe fugiu. Fugiu para me salvar. Ela fugiu para parte mais gelada deste planeta, e, por isso estou aqui. – Estas palavras foram recebidas na forma de esperança pelo outros, que se aproximaram para ouvir a história.
- Então, a lenda da Lulu que conseguiu enganar os Anunnakis e fugir, é verdadeira? – Perguntou o velho.
- Se esta lenda se refere a minha mãe, sim. É verdadeira. – Um alvoroço se formou, muitos sorriram, e conversaram entre si. Fugir afinal era sim, possível.
– Você não precisa aceitar este destino! – Falou Gilgamesh para o velho – Eu estou indo embora, venha comigo e, se salve!
- Não, meu filho. Temo que isso não seja possível!
- Sim, é possível, eu te ajudo.
- Você é um hibrido bom, deve ter herdado a bondade de sua mãe, mas, você não conhece como funcionam as coisas por aqui. – E, prosseguiu o velho. - Nós trabalhamos nas lavouras, para alimentar os Anunnakis. Assim como a construção da cidade, é um trabalho muito pesado, extremamente cansativo e, possivelmente fatal. Porém, nem se compara com o trabalho nas aralis, o lugar que chamamos de “inferno”.
Há algum tempo atrás, tentamos, por várias vezes, fugir, e também fizemos paralisações, exigindo melhor qualidade de trabalho e vida. Estávamos conseguindo, até que, veio a ameaça das aralis. Antes qualquer Lulu poderia ser enviado para as garras de Ereshkigal, nas minas, sem motivo, mas... agora não.
Somos uma raça que se preocupa muito com nosso próximo, mais até do que com nós mesmos e, os Anunnakis não tardaram em descobrir isso. Obviamente resolveram usar essa proteção que temos pelo próximo, contra nós mesmos. Agora, aqueles que tentam a fuga, ou desagradam os Anunnakis ou até mesmo, fazem paralisações, tem todos os seus parentes próximos enviados às aralis, não importa se são crianças, fêmeas ou machos, todos são enviados, mas, como castigo, não ele próprio, que ficará com o peso de ter enviado sua família para o inferno. E isso, é para nós, um castigo muito grande, um fardo a carregar até o fim de nossas vidas. Por isso, se eu fugir, minha família será certamente enviada às minas. Não posso permitir isso. Já estou velho, mas eles... eles têm muito ainda que viver.
As palavras do ancião tocaram forte no coração de Gilgamesh e, por alguma razão, decidiu não voltar para os kerabulus naquela noite. Estava decidido a ir embora, mas não nesta noite. Despediu-se dos Lulus e foi, novamente, para seu esconderijo. Não teve problemas para passar pelos canineus. Como os Anunnakis não costumam cuidar de seus animais, os canineus passaram de segurança para evitar fuga dos Lulus, a seus animais de estimação.
Gilgamesh não poderia imaginar, porém, que as emoções do dia ainda não haviam acabado.