CAPÍTULO 47

Estranhamente o carro não anda.
Ajeitei meu corpo, dentro do porta-malas da caminhonete preta de meus perseguidores. As algemas estão muito apertadas e, meus pulsos latejam. Estranhamente, o tempo passa e não sinto o carro andar, em vez disso, escuto vozes distantes.
Parece uma discussão.
Algum tempo se passou até que, o porta-malas é aberto e, quem eu vi, fez crescer em mim uma alegria, e uma grande dose de alivio. É o fazendeiro.
- Venha professor, eu te ajudo! – Falou o fazendeiro me ajudando a sair do porta-malas.
Ao sair, percebi do porque o carro não andar. Meus perseguidores estavam algemados, e sentados no chão, estava presente o delegado da cidade, alguns policiais e vários dos trabalhadores da fazenda. Todos apontavam suas armas para eles, que tentavam argumentar que também eram policiais, e que eu, é quem era o verdadeiro bandido.
O fazendeiro retirou minhas algemas, me levou para longe do grupo e falou.
- Não sei o que você fez, professor e, nem quero saber. Mas, eu não admito que um hospede meu, saia de minha fazenda algemado, e sem meu consentimento. Além do mais, você ajudou muito minha filha, sou grato por isso.
- O que vão fazer com eles? – Perguntei.
- Meu amigo, o delegado – respondeu o fazendeiro -, os deixará presos por esta noite, é o máximo que dá pra fazer, eles alegam que são federais. Você vai ter que ir embora, pra mais longe que puder.
Enquanto os policiais levam o grupo que está tentando me capturar para delegacia, o fazendeiro me leva para uma grande garagem. Nela há vários carros e motos de sua propriedade.
- Escolha um veiculo para sua fuga. – Falou o fazendeiro.
- Como assim? – Perguntei.
- A pé eles te pegam amanhã mesmo. Leve um veiculo, e fuja, rápido!
Na garagem havia vários veículos, caminhonetes, carros de luxo e, algumas motos. Não tive dúvidas e, escolhi uma moto de baixa cilindrada.
A moto gasta pouco combustível e, como estou sem dinheiro, será mais fácil mantê-la, também, moto é mais ágil e fácil de esconder. Isso sem falar que, sempre achei um desperdício deslocar toneladas de aço, gastando um absurdo de combustível, com uma cavalaria ignorante, poluindo em excesso, apenas para levar um único passageiro. Por isso sempre fui mais fã de motos.
Com a escolha feita, busquei minhas coisas que estavam na casa sede da fazenda. O fazendeiro e sua filha me acompanharam até a garagem, onde a moto já estava funcionando e com o tanque cheio. Estavam presentes também dois dos trabalhadores da fazenda, que deram uma geral na moto.
Abracei a filha do fazendeiro, e dei um grande aperto de mão no fazendeiro, agradecendo pelo que estavam fazendo por mim. O fazendeiro, em um último gesto de sua boa índole, colocou sua mão no bolso e tirou um maço de dinheiro e me entregou.
- Não precisa. – Falei – Por tudo que estão fazendo por mim, não posso aceitar o dinheiro.
- Você fez um grande serviço professor, além do que, arriscou sua vida pra salva minha filha, isso não tem como ser pago. – E concluiu – Você com certeza irá precisar deste dinheiro!
Realmente, o fazendeiro tem razão, vou precisar de dinheiro e não tenho como conseguir mais. Acabei aceitando.
- Professor, eu sei que não é muito, mas, é o que tenho em dinheiro na fazenda. Quando for possível, volte busca o resto do seu pagamento.
Guardei o dinheiro, coloquei o capacete, e sai o mais rápido que pude. Não por pressa, tinha a noite toda para andar, mas, porque estava quase chorando. E se chorasse, minha reputação ficaria pior ainda com os peões da fazenda.

***

Gilgamesh soube imediatamente, que o matariam.
Podia ler pensamentos e, este dom passou de uma hora para outra, de dádiva em desgraça. Graças a este poder, sabe o que os guardas voltaram para fazer, voltaram para matá-lo. Sabia que o matariam e, sabia também, de que forma seria.
Iriam matá-lo ali mesmo, na jaula, não podiam sair com ele, ninguém deveria saber. Depois carregariam seu corpo até o veiculo parado em frente onde também estavam os galões de combustível, que serviriam para queimar seu corpo. Gilgamesh chegou à conclusão que, saber ler pensamentos, tinha suas desvantagens, como esta, sabia antecipadamente tudo que iria sofrer e, não tinha como evitar.
Ouviu o som das portas do galpão onde estava preso, serem destrancadas. O desespero tomou conta de si. Tentava, inutilmente, forçar as grades, deu chutes, até tentou morder as barras, porém nada surtiu efeito, seu fim parecia iminente. As portas do galpão começaram a abrir e, o coração de Gilgamesh quase salta pela boca, somente conseguia pensar que... iria morrer.
Os guardas estavam abrindo as portas. Suas ordens eram claras, matar a criatura e queimar o corpo para que não restassem vestígios. Gilgamesh estava apavorado, sabia de tudo, podia ler pensamentos. Uma atitude irracional tomou conta de si, não havia lógica em seu ato, em outra ocasião iria se sentir ridículo, mas, agora isso não importava. Encolheu-se no chão da pequena jaula, fechou seus olhos e começou a pensar – não podem me ver, não podem me ver, não podem me ver... – repetiu esta frase como um mantra, era a mesma que repetia quando brincavam de esconde-esconde. Sua mãe, em sonho falou esconde-esconde, não fazia sentido, mas, no momento era tudo o que podia fazer.
Os guardas entram, e seguem direto em direção a jaula, a uma certa distância porém, param repentinamente, se entreolham e correm juntos em direção a jaula de Gilgamesh que, para seu espanto, esta vazia.
– Onde está ele? – Perguntam-se entre si. Mas não tinham a resposta.
Imediatamente, começaram a vasculhar todo o galpão, na esperança de encontrá-lo, porém foi em vão. Gilgamesh, cuidadosamente abre seus olhos, com o infantil medo de que, se os visse, eles também o veriam, o que não aconteceu. Os Anunnakis, não conseguiam vê-lo. Depois de muita procura, começaram a conversar entre si, observados de perto por Gilgamesh.
- O Chanceler vai nos matar se souber! – Falou um dos guardas.
- Ele não pode saber! – Respondeu o outro.
- O que vamos fazer?
- Vamos cumprir nossa missão!
- Como assim, o mestiço fugiu!
- Mas só nós sabemos. Vamos mentir para o Chanceler, que o matamos. Tacamos fogo em alguma coisa, e falamos que era o corpo do pobre.
- E se ele aparecer novamente?
- Não vai, deve ter fugido assustado, como um animal que é. E se, for um pouco esperto, nunca mais voltará.
- Como será que ele fugiu...
- Nem quero saber.
Os dois saíram do galpão, e foram embora, deixando Gilgamesh, que estava aliviado por ainda estar vivo, e feliz por ter conseguido ficar invisível.
Sua felicidade, porém, foi passageira. Só agora se lembrou de que estava preso e, estava com muita sede. Não podia pedir socorro, porque, se algum Anunnaki atendesse seu chamado, certamente o mataria.
Procurou se acalmar, e observou o galpão onde estava. Parecia abandonado, estava tomado por teias de aranha, e algumas plantas começavam a invadi-lo. Certamente, ninguém vinha ali há muito tempo. Essa constatação o deixou apavorado. Sendo este um barracão abandonado, nunca o encontrariam.
Se continuasse ali certamente... morreria de inanição.