CAPÍTULO 49

Um rio! Isso é tudo o que Gilgamesh pode querer.
A sede estava insuportável, afinal, por dois dias esteve preso na jaula. Pensou que iria morrer de sede e fome.
Apesar do susto, depois de saciado, chegou à conclusão que não devia desistir de sua busca:
– Descobrir o porquê desta insensatez que é a Morte.
Junto com esta informação, pretendia descobrir também, o porquê da dor, do sofrimento, das doenças, e, de lambuja, encontrar uma forma de ajudar seu povo, os Lulus a livrar-se da escravidão imposta pelos Anunnakis. Parecia muito, mas, estava decidido, e Tinha certeza, encontraria a solução para tudo isso em um mesmo lugar.
– Agora será mais fácil! – Falou para si mesmo, já em seu esconderijo, saboreando uma espiga de Zea Mays, pela qual agradecia aos Anunnakis. Achou realmente o cereal muito saboroso.
Agora sabia como ficar invisível aos Anunnakis, isso lhe dava confiança, afinal, poderia andar entre eles e saber o que falam e o que pensam. Precisará, somente, ser mais cuidadoso.
Logo ao clarear do dia, saiu em direção à Eridu, a cidade Anunnaki.
Torcia para que fosse mais bonita por dentro, do que era fora, porque ao seu redor o que se via, era somente lixo e poluição. Após algumas horas de caminhada, finalmente chegou à entrada da cidade. Parou, tomou fôlego, concentrou-se para certificar que estava invisível e finalmente, entrou. À medida que avançava, sentia-se como entrando em um formigueiro gigante, milhares de Anunnakis e Lulus andando para um lado e para outro, esquivando-se dos veículos que passavam a grande velocidade.
Em um canto alguém tentava vender algo aos berros, mais as frentes dois discutiam, gritando um com outro, do outro lado, alguém alertava “pega ladrão!” ao que viu um Anunnaki correndo com algo nas mãos. Não conseguia entender o porquê de Enki sempre falar com saudades da cidade, e dizer que sentia falta da civilização. Na verdade, não conseguia sequer entender o porquê de chamarem isso de civilização, parecia mais, um manicômio sem portas.
Gilgamesh se sentia sufocado. Uma estranha agonia apertava seu peito, impelindo-o a voltar para floresta e, ainda para piorar a situação, não estava conseguindo controlar o seu poder de ler pensamentos – olha que Anunnaki gostosa! – preciso pagar esta conta ainda hoje! – se meu chefe me encher o saco, juro que arrebento a sua cara – será que a Judij irá gosta do presente? Uma avalanche de informações toma conta de sua mente, sua cabeça começa a doer, não consegue se controlar. Precisava fazer isto parar, mas, não estava conseguindo.
Todos os pensamentos de todos que estavam próximos a ele tomam de assalto a cabeça de Gilgamesh. Tendo a certeza que perderia rapidamente sua sanidade, colocou as mãos na cabeça e saiu cambaleante, tentando fugir daquele inferno. No caminho se bateu contra alguns transeuntes, que não entenderam o que lhes havia atingido. Atravessou por uma rua, quase sendo atingido por um veiculo, até que, finalmente, conseguiu sair da cidade, encontrou um bosque e, desmaiou em cima de uma moita.
Quando acordou já era noite, ficou grato por ninguém o encontrar. Precisava aprender a controlar seus poderes, sempre viveu isolado, somente com sua mãe e Enki, nunca esteve no meio de tantos indivíduos pensantes ao mesmo tempo.
Resolveu mudar a tática de ação e, desta vez foi entrando aos poucos na cidade, primeiro pela periferia, com poucos Anunnakis. Dia após dia foi conseguindo se controlar, e estava aprendendo a selecionar os pensamentos, e ler somente de quem escolhesse. Estava sentindo-se feliz por isso, finalmente poderia seguir com sua busca. Depois de vários dias, agora mais preparado, foi direto para o cento da cidade.
Quando chegou o final do dia, voltou para dormir em seu esconderijo, fora de Eridu. A felicidade antes existente havia passado. Não tinha a mínima idéia de por onde começar a procurar.
Os pensamentos são imprevisíveis. A maior parte do tempo, eles vagam em assuntos banais, aos quais conferimos status de grandes calamidades. Um transporte que atrasou, para aquele que chegará atrasado a algum compromisso, é o fim do mundo. Uma chamada de atenção do chefe tem o poder de nos deixar como se a beira da morte, e as contas vencidas então, podem-nos por na lona. Ninguém estava pensando na morte, e no porque dela existir. Para os Anunnakis é normal, afinal, não morrem, mas, o que Gilgamesh estranhou, era que nem mesmo os Lulus, pensavam nisso.
Muito tempo se passou, e nenhuma informação importante.
O máximo que conseguiu foi algumas pequenas boas ações, salvando alguns Lulus dos castigos Anunnakis, mas sabia que era pouco. Havia muita crueldade contra seu povo, e ele não podia desistir. Sentou em um banco isolado de uma praça, para descansar um pouco e repensar sua estratégia. Seu sossego, porém, durou pouco.
Logo uma Lulu sentou, sem saber, ao seu lado. Ele, que pensava estar invisível, precisou sair um pouco para o lado, senão ela sentaria em seu colo. A Lulu parecia muito abalada, e Gilgamesh, curioso, começou a ler seu pensamento. O que descobriu, não era nada bom. Ela começa a chorar, Gilgamesh sente uma vontade irresistível de consolá-la, mas não pode, durante o choro, ele não consegue levantar mais nenhuma informação, ela só ficava repetindo – Eles vão matá-lo, eles vão matá-lo,... – depois de muito choro, ela levanta-se e vai embora.
Gilgamesh resolveu segui-la, talvez ela não soubesse muito, mas, era melhor que nada. Ela sabia alguma coisa de um tal “Chanceler”, ele nunca tinha ouvido falar deste sujeito, mas parecia importante.
A jovem se refaz tentando esconder que estava chorando e, entra em uma das casas. Gilgamesh entra junto, tomando cuidado para não levar uma portada no nariz.
Dentro da residência havia um Anunnaki, que ao vê-la levantou-se rapidamente e veio em sua direção. Gilgamesh não leu seu pensamento, não precisava, sabia que ele a ira agredir. Ao ver aquilo não hesitou e passou a perna no Anunnaki, que se estatelou no chão, levando consigo uma mesa e tudo que havia sobre ela.
- Fuja! – Gritou Gilgamesh, agora já podendo ser visto – Aproveite enquanto ele está caído. Fuja!
Sua boa intenção, porém, foi mal compreendida.
A Lulu começou a gritar desesperadamente, como se estivesse vendo um fantasma. Ela pega uma panela que havia sobre o fogão, e acerta em cheio a cabeça de Gilgamesh que, a partir de então, não vê mais nada.