CAPÍTULO 50

Se minha bunda soubesse falar, certamente me xingaria.
Motos de baixa cilindrada são excelentes para o transito das grandes cidades, também são muito econômicas, mas, definitivamente, não são boas para grandes viagens. Passei a noite toda andando, seguindo para mais longe que foi possível da cidade em que estava. A certa altura da viagem precisei pilotar em pé, por imposição peremptória de minhas nádegas.
Quando meu corpo, finalmente, pediu clemência, graças à fome, sede e sono. Parei em um pequeno hotel, onde foi possível esconder a moto em uma garagem interna. O dia já estava clareando. Fiz um pequeno lanche em uma padaria próxima, e passei o restante do dia dormindo.

***

- Veja, ele está acordando!
- Você o amarrou direito?
- Sim. Será que devemos chamar a guarda?
- Sei lá. Pela aparência acho que devíamos chamar o doutor Anzu!
- Aaaaiiii, minha cabeça... – resmungou Gilgamesh, prometendo para si mesmo ser mais cuidadoso.
- Quem é você? – Perguntou o Anunnaki, em pé, apontando uma faca de mesa para Gilgamesh.
- Eu sou Gilgamesh. Aiii! – Disse sentindo uma pontada na cabeça. Tentou, inutilmente, esfregar sua cabeça com as mãos, mas, para sua infelicidade, descobriu que estavam amarradas.
- Porque invadiu nossa casa? – Perguntou a Lulu, em tom inquisidor.
- Eu só estava tentando protegê-la!
- Proteger-me de quem?
- De quem mais. Dele. – Falou Gilgamesh apontando com a cabeça, única parte que conseguia mover, para o Anunnaki – Você estava chorando por causa de alguém chamado Chanceler, conclui que seria ele.
- O que? – Perguntou Nebo, sem entender nada – Porque você estava chorando por causa do Chanceler? Eim, Lizi!
- Errr, bem... eu? – Respondeu Lizi, sem jeito – Eu não estava chorando... quer dizer...
- Pode explicar direito esta história! – Exigiu Nebo desconfiado.
- Não estava chorando... bem, na verdade estava, mas...
- Ela estava pensando que alguém iria ser morto! – Falou Gilgamesh.
- Não se meta no que não é da sua conta! – Gritou Lizi para Gilgamesh, nervosa.
- Quem vai ser morto? – Questionou Nebo.
Mas Lizi não respondeu. Simplesmente sentou em uma cadeira, colocando as mãos no rosto e, novamente chorou. Nebo ajoelhou-se próximo a ela e a abraçou tentando consolá-la. Gilgamesh ficou olhando, era só o que podia fazer, já que estava amarrado, deitado no chão. Sua cabeça ainda doía com a pancada.
Ao ver o carinho do Anunnaki com a Lulu, Gilgamesh lembrou-se de Enki, e chegou à conclusão que tomara uma decisão precipitada:
- O Anunnaki não a iria agredir, ela a ama! – E ele próprio, não devia ter se mostrado para os dois.
Nebo esperou, pacientemente, até que Lizi ficasse mais calma. Trouxe para ela um copo de água, e a consolou. Somente quando ela parou de chorar, ele a questionou, com todo cuidado, sobre o que acontecera.
Ela sabia que havia a hora tinha chegado. Não tinha mais como esconder e contou a Nebo tudo. Contou que, por curiosidade, havia invadido o servidor, o “Grande Cérebro”, e vasculhado os arquivos do Chanceler. Descreveu em detalhes tudo o que vira, e o quanto isso a deixou nervosa. Gilgamesh também ouvia tudo, amarrado no chão, e ficou estarrecido com a história.
- E hoje, fiz algo que me causou mais arrependimento ainda – continuou Lizi –, fui procurar o Chanceler!
- O que? – gritou Nebo – Porque você fez isso?
- Bem, eu inventei a história de que precisava arrumar o computador dele, já que sabia, ele não me atenderia. – Prosseguiu Lizi – Quando estávamos na sala, somente ele e eu, lhe contei em detalhes de tudo que sabia. Imediatamente, ele chamou seus seguranças para me prender, por medo, falei que mais pessoas sabiam, e que tinha provas. Se acontecesse algo de ruim para mim, as provas seriam espalhadas. Só assim ele dispensou os guardas, e me deu atenção.
- Mas eu não entendo porque você fez isso – questionou Nebo –, ele é um Anunnaki muito perigoso!
- Eu sei – falou Lizi –, mas eu queria fazer um acordo.
- Que acordo? – Perguntou Gilgamesh, se metendo na conversa.
- Fiz uma proposta, se ele revogar a lei que proíbe o nascimento de bebês híbridos, eu lhe entrego todas as provas!
- Mas Lizi – falou pacientemente Nebo –, nós já conversamos a respeito, posso bem viver sem um filho, achei que você já tinha se conformado, como eu me conformei.
- Sim, eu também já estava conformada, poderíamos viver bem assim. Mas, aconteceu algo que não planejamos, e que, teremos que nos responsabilizar, e tomar uma atitude extrema. Nebo – Lizi fez uma pausa para tomar coragem, e completou -, eu estou grávida!