CAPÍTULO 64

Durante algum tempo, não observei nada de estranho.
Parecia que meu plano havia dado certo, tenho percorrido diversas cidades, sem perceber a presença de meus perseguidores, parece que, finalmente, os havia despistado.
Estou percorrendo uma estrada secundária no interior do Rio Grande do Sul, estado, aliás, muito bonito. A estrada é bastante deserta, tudo que se vê são lavoura e pastagem. Isso me permite manter uma velocidade constante com minha moto, apesar de não muito rápida, já que a moto não anda mais que isso, afinal, é uma moto de baixa cilindrada.
Encontro uma curva acentuada à frente, mas, não preciso diminuir a velocidade para contorná-la. Bem, pelo menos, até quase completar a curva, pois ao final desta, se materializou a minha frente algo impensável e, totalmente inesperado.

***

Os três passaram a noite “varrendo” o complexo em busca do casal, sem sucesso.
Kalkal é esperto e, com as plantas do complexo nas mãos, logo identificou onde ficava o CPD – Onde mais um informático se esconderia? – Falou para si mesmo. Imediatamente chamou seus comparsas e, seguiram até o provável esconderijo. Rapidamente o encontraram, e também tão rápido, constataram que entrar não seria tarefa fácil.
O CPD é realmente um cofre. Informação é algo extremamente valioso, e deve ser protegido. Apesar de abandonado, a estrutura desta Central de Processamento de Dados, ainda estava em ótimo estado. Kalkal identificou uma câmera de segurança próxima à porta de entrada e, percebendo que estava ligada, aproximou-se e falou:
- Nebo, nós sabemos que você está ai. É inevitável, um dia você precisará sair, sua namorada Lulu está grávida, ela precisa de cuidados especiais, afinal, até hoje, nunca nasceu um hibrido. Abra, eu trago um acordo do Chanceler. Um acordo bem razoável.
A esta altura, Lizi, já estava acordada e assustada ao lado de Nebo. Ela passava a mão sobre a barriga, o medo de perder seu filho, antes mesmo de nascer a apavorava mais que perder a própria vida.
Kalkal prosseguiu.
- O Chanceler gosta muito de você, por isso, nos mandou fazer um acordo. Ele só quer as informações que você roubou. Nos entregue, e deixaremos vocês dois seguirem suas vidas, livres.
Nebo olhou para Lizi empolgado, pegou a pequena placa transparente de seu bolso. Ela sabe bem o que é esta placa. É uma colônia de neurônios, organizadas para armazenar informações, em resumo, um dispositivo biológico de armazenagem de dados, um cristal de dados, e falou:
- Eu gravei todos os arquivos do Chanceler nesta placa antes de apagá-las do servidor, sabia que seria útil, e agora será. Ele gosta de mim, vai nos libertar. Vou entregar a placa... – Nebo nem conseguiu terminar a frase. Um tapa atingiu em cheio sua bochecha esquerda.
- Não seja idiota, Nebo! – Gritou rispidamente Lizi – Você acha mesmo que eles irão nos deixar ir? – Tomou a placa da mão dele – Esta é a nossa única chance de sobrevivermos, e de salvar nosso filho. Se a entregarmos, estaremos mortos, e você sabe bem disso. Ou ainda acredita nas mentiras do Chanceler?
Nebo caiu em si. Ela tem razão, o Chanceler não perdoa, nunca soube que perdoou alguém, e não haveria razão para mantê-los vivos após entregarem os arquivos.
- O que faremos, então?
- Temos bastante comida, e uma maquina de fabricar água. Você mesmo disse que este lugar é um cofre. Vamos ficar aqui até termos uma idéia de como escapar, ou... – ela respirou profundamente -, até nosso fim. Mas, que seja juntos.
E o cofre resistiu.
Durante vários dias, Kalkal e sua turma esperaram e tentaram negociar, sem sucesso, a saída dos dois. Mas, a paciência de Kalkal finalmente acabou.
- Vamos usar isto! – Entregou um dispositivo a um de seus comparsas.
- Tem certeza, poderemos matá-los!
- É um risco. Usem... agora!
Lizi e Nebo observaram a movimentação dos três fora do CPD. A principio não entenderam o que iriam fazer, mas logo perceberam que estavam em perigo. Imediatamente travaram a porta interna com uma mesa. Seguiram para parte de trás, onde fica o quarto. Ergueram o colchão, formando com ele uma barreira e... esperaram pelo pior.
A explosão foi enorme.
Kalkal utilizou o mesmo explosivo utilizado nas minas, mas, como não conhecia bem sua força, acabaram derrubando toda uma parte do cofre de dados.
- Não falei Kalkal!- Falou um dos comparsas – Com certeza eles morreram na explosão. Foi muito forte!
- Vamos procurá-los! – Ordenou Kalkal.
Vasculharam todo o escombro, removendo o que podiam. Suas ordens eram, não só matar os dois, mas recuperar as informações, e descobrir se mais alguém sabia do seu conteúdo. O Chanceler não queria correr riscos, sabia que, se estas informações fossem enviadas para as pessoas certas em Nibiru, nem mesmo o Rei poderia salvá-lo. Aliás, seria o primeiro a condená-lo.
- Temos que conseguir um trator para remover este entulho e, ao menos recuperar os corpos!
Já estavam de saída, quando um dos três, resolveu remover um colchão, que estava parcialmente escondido nos escombros. Teve uma grata surpresa.
- Ei! – Gritou – Olhem o que achei!
Os outros retornaram e, olhando sobre o colchão, agora todo rasgado, lá estava o casal, abraçados, e ainda vivos.
O colchão os salvou dos estilhaços, escaparam sem nenhum machucado. Mas, tinham certeza, agora que os encontraram, estariam em melhor situação, se estivessem mortos. O casal foi levado para um prédio maior, lá eles foram amarrados em pé, pendurados por cordas pelos braços. Nebo ainda implorou que soltassem Lizi, mas eles o ignoraram.
- Muito bem, onde estão dos dados? – Perguntou Kalkal a Nebo, com um olhar que faria um Panthera Leo congelar de medo.
- Nã... Não existem dados, eu já falei... – recebeu uma bofetada, e outra, e um soco no estomago, e outra bofetada...
- Tem certeza? – Perguntou Kalkal, novamente.
- Sim! – Falou Nebo cuspindo sangue.
- Bem... quem sabe, sua esposa animal, saiba me responder!
- Não toque nela! – Gritou Nebo - Não existe nenhuma informação, foi um mal entendido.
Kalkal foi andando, lentamente até Lizi, que estava amarrada a alguns metros, de frente para Nebo.
- Que bela barriga! – Falou acariciando, desdenhosamente, a barriga de Lizi – Deve ter um belo animalzinho aqui dentro. Quem sabe ele me fala onde estão as informações. – Em um só golpe, partiu a roupa de Lizi, deixando-a nua.
- Pelo tamanho de sua barriga, já deve estar quase na hora de nascer. Não seria nada bom perder todo este tempo de gestação para... ver seu filho morrer logo em seguida.
- Por favor, tenha compaixão! – Implorou Lizi em prantos.
- Na minha profissão, compaixão é algo que não conheço. Não me importa se vocês ou este “ser” nojento em seu ventre vão viver ou morrer, só quero as informações. Suas vidas dependem exclusivamente... de vocês mesmos!
Ele foi convincente. Apesar de importantes, os planos do Chanceler agora, estavam em segundo plano, pelo menos para os dois. Seu filho era o que importava. Lizi não teve dúvidas, e revelou.
- Dentro da roupa de Nebo. Nas suas calças, existe um bolso interno. A gravação das informações está lá, dentro de um cristal de dados. Peguem, mas, nos deixem viver!
Kalkal sorriu. Conseguira novamente.
O treinamento militar que recebera sempre se mostrava útil e, com isso, sua credibilidade com o Chanceler sempre estava em alta, e seus ganhos também.
Em sua juventude fora um jovem problemático, sempre envolto em encrencas e pequenos delitos. Na esperança de regenerá-lo, seus pais o alistaram no exercito mundial de Nibiru. Lá obteve treinamento e disciplina, mas não realização.
Nibiru todo tem um só governante, o mundo todo é uma única nação, sem distinção, pelo menos após o grande incidente ambiental, que quase levou os Anunnakis a extinção. Com isso, a vida no exercito era monótona, não havia e nunca haveria guerra. As funções do exercito mundial de Nibiru, se restringia a prestar socorro a vitimas de algum desastre ou suprimir quem desrespeita a severa lei ambiental. Para Kalkal, isto era um saco.
Sua vida, porém, mudou quando Enlil, que naquele tempo ainda não possuía o cargo de Chanceler, precisou livrar-se de um adversário político. Através de amigos, chegou até aquele jovem militar, muito preparado e, na mesma proporção, muito descontente com o exercito.
As ordens, logicamente, não foram diretas. Enlil sempre teve uma reputação a zelar e, utilizou um intermediador, alguém de confiança. O serviço foi executado por Kalkal com maestria.
Outras tarefas vieram em seguida, sempre através de um intermediador. A confiança de Kalkal foi crescendo, assim como os dígitos de sua conta bancaria. Finalmente, Kalkal conquistou, em definitivo, a confiança, do agora já Primeiro Ministro Enlil. Ele possuía todos os atributos admirados por Enlil, estava sempre sedento por ação, não apresenta remorsos do que fazia e não tem sentimentos pela sua vítima, não importa quem ela seja.
O primeiro serviço que fez, obedecendo diretamente às ordens de Enlil, foi matar quem sempre intermediou os serviços entre os dois. Na concepção de Enlil, um segredo conhecido por três não é mais segredo e, o Primeiro Ministro, tem uma reputação a zelar.
- Muito bem, reviste o informático! – Ordenou Kalkal a um de seus subordinados.
- Aqui está o cristal! – Falou, animadamente, ao encontrar, justamente onde Lizi disse que estaria.
- Vejo que, para uma escrava, você é esperta. – Disse Kalkal, com desprezo à Lizi – Agora que começamos a nos entender, me responda. Quem mais sabe destas informações?
- Ninguém! – Respondeu Lizi rapidamente – Somente nos dois sabemos, e, não contaremos nada!
- Somente vocês mesmo? – Seu olhar era inquisidor.
- Sim, eu juro. Não iria mentir, só queremos continuar vivos, e com nosso filho!
Pela sua experiência, Kalkal sabia que Lizi falava a verdade e, isso para ele já era o suficiente. Confiava em sua intuição.
- Muito bem! – Falou jogando o cristal de dados para cima e pegando como uma criança, divertindo-se com um novo brinquedo – Eu acredito em você. – O casal respirou aliviado, achando que o pior havia passado. Ledo engano.
- Vocês dois – falou Kalkal aos seus ajudantes –, matem os dois. E depois... põem fogo neste lugar asqueroso! – Ergueu os ombros com desprezo ao lugar onde estavam.
- Você falou que nos soltaria! – Gritou Nebo.
- Em nenhum momento eu falei isso. Vocês é que interpretaram errado! – E sai rindo, deixando seus comparsas para terminar o serviço.