CAPÍTULO 74

Os guardas Anunnakis fazem sua rotineira ronda nos limites das plantações.
É um trabalho chato, pois nunca acontece nada. Desde as ameaças em enviar todos os familiares dos Lulus que desobedecerem para as aralis, as fugas caíram à zero. Mesmo assim, a vigilância permaneceu. Ao longe, um grupo de animais bípedes se aproxima do rio para beber água, são os kerabulus. Os guardas observam, olhando para o grupo despretensiosamente, simplesmente, por não ter nada melhor para fazer.
Seu marasmo, no entanto, é interrompido quando um kerabulu diferente dos demais se aproxima da água. Um dos guardas, o primeiro a perceber, chama o segundo e mostra a estranha criatura. Com a ajuda de um binóculo, eles observam atentamente o animal, que, se inclina e também bebe água do riacho. Diante do estranho kerabulu, os guarda comentam:
- Viu que kerabulu estranho?
- Sim, ele é pelado. Parece um Anunnaki!
- Não seja burro. Onde já se viu comparar um kerabulu a um Anunnaki. Ele não é branco como nós!
- Sim, isso eu vi, mas, você reparou no seu tamanho, é bem maior que os outros!
- Tenho uma idéia – falou animadamente um dos guardas -, para passar o tempo, vamos criar uma armadilha e capturá-lo?
- Boa idéia, eu sei fazer uma armadilha muito boa. Aprendi com meu pai!
Os dois se divertem com a idéia, agora não haveria mais tédio, poderiam dedicar seu tempo em capturar o kerabulu gigante, afinal, ele é diferente e, no conceito Anunnaki, o que é diferente não é bom.

***

O vidro se estilhaça com uma pancada.
Gilgamesh retira, cuidadosamente, os papeis que estavam no mural e os guarda na bolsa de couro que utiliza para carregar seus pertences. Tem muito cuidado com esta bolsa, pois fora fabricada pela sua mãe Ninsun.
- O que está fazendo Gilgamesh? – Pergunta Nebo.
- Guardando este documento. Já que vamos incendiar este local, pelo menos teremos uma prova de sua existência.
Em seguida, começou a despejar o combustível que os capangas de Kalkal trouxeram, encharcou bem, principalmente os corpos dos Anunnakis. Saíram do prédio, Nebo ainda deu uma volta pelas instalações para constatar que realmente estavam sós.
Quando Nebo deu um ok, Gilgamesh acendeu uma tocha, olhou uma última vez para o prédio, respirou fundo e, finalmente ateou fogo no que, um dia foi o jardim do EDEN, o paraíso para os Lulu Amelus. Os três ficaram olhando enquanto o fogo consumia o prédio. Um sentimento de perda, estranhamente, tomou conta de Lizi e Gilgamesh, era como se o seu próprio lar estivesse em chamas. Um lar, que jamais lhes pertenceu realmente.

***

O veiculo segue a toda velocidade. Gilgamesh está tenso, nunca havia viajado em um veiculo Anunnaki.
- Fique tranquilo, é seguro! – Fala Lizi, tentando acalmá-lo.
- Se está com medo agora, imagine então pegar uma espaçonave para encontrar Nammu! – Tirou um sarro Nebo.
- Eu vou sim! – Responde Gilgamesh - É o único jeito de conseguir descobrir o que preciso. Pare ali! – Aponta para umas arvores que formam uma grande sombra. – Tire tudo o que precisar o veiculo e livre-se dele, agora só a pé.
Por conselho de Gilgamesh, Nebo levou bastante agasalho, comida e remédios. Tinham decidido ir para as cavernas onde Gilgamesh e sua mãe viveram. Estava claro que, não estariam em segurança próximos a Eridu. Gilgamesh os guiaria pelo caminho que contorna o mar, caminho este que havia aprendido com os kerabulus. Era mais longo, porém mais seguro que atravessar o mar cheio de feras.
Iriam passar a noite neste local. Gilgamesh fez uma fogueira, enquanto Nebo livrava-se do veiculo, jogando-o no mar. Como os veículos Anunnakis são biológicos, em pouco tempo a água salgada se encarregará em decompor o veiculo, destruindo de vez as evidencias de que, passaram por ali.
Gilgamesh foi a uma nascente próxima e, retirou um pouco de barro. Modelou, e o deixou secar próximo à fogueira. À noite, ao redor da fogueira, Lizi já estava dormindo, precisava descansar para longa viagem. Nebo, porém, ficou acordado, dando dicas à Gilgamesh de como sobreviver nas espaçonaves.
- As espaçonaves foram projetadas para suportar a vida Anunnaki – falou Nebo -, será que você sobreviverá?
- Não sei – respondeu Gilgamesh -, mas é preciso. Os lulus dependem disso, tenho que encontrar Nammu.
- Fique próximo aos Anunnakis. Nos compartimentos de carga não há oxigênio, você morrerá em pouco tempo!
- Certo.
- Também a temperatura é controlada, porque no espaço é muito frio.
- Tudo bem.
- Este é o endereço da casa de Nammu. – Entregou um pedaço de papel à Gilgamesh -Peguei nos registros antes de sairmos. Nibiru todo é uma grande cidade, sem um endereço, você nunca a encontrará.
- Obrigado.
- As primeiras espaçonaves partem dentro de duas semanas, pelo calendário de Nippur. Dará tempo para você voltar?
- Eu iria lhes falar isso amanhã, mas já que você comentou... daqui eu volto, vocês vão sozinhos.
- Eu entendo e, quero que saiba, somos eternamente gratos por tudo que fez por nós.
- Resista Nebo. E cuide de sua família. Um dia vocês não precisarão mais esconder-se, e os Lulus serão livres. Eu prometo.
Nebo deu um sorriso forçado. Apesar de suas boas intenções, o que um hibrido sozinho poderia fazer para mudar a situação dos Lulus, mesmo que pudesse ficar invisível? Mesmo Nammu não teria poder para tanto. Para Nebo, Gilgamesh estava se arriscando a toa, mas decidiu não falar nada, não queria desmotivá-lo.
O dia clareou e eles se despediram. Gilgamesh entregou ao casal duas tábuas de argila. Em uma delas, havia um mapa de como chegar á caverna mais próxima. Era o local mais quente e, por isso melhor para o nascimento de seu filho. Na outra tábua, estava escrito, em letras cuneiformes:
“Gilgamesh”
- Caso encontrem com os kerabulus, entreguem esta tábua a eles. – Falou Gilgamesh - Eles não sabem ler, mas, irão reconhecer meu nome e, os ajudarão. Eles são seres bons. Quem sabe encontram meu irmão. Certamente irão reconhecê-lo.
A escrita cuneiforme é mais fácil para escrever em tábuas de argila. Havia aprendido com sua mãe, que a adaptou a partir da escrita Anunnaki. Toda alfabetização de Gilgamesh foi utilizando estas tábuas. Nelas também, sua mãe escreveu um diário, desde o momento da sua fuga, até a sua morte. Ele avisou ao casal que encontrariam estas tábuas de argila espalhadas pelas cavernas de Nippur por onde sua mãe e ele passaram.
- Mantenham-se agasalhados – fala para o casal -, principalmente você Nebo. Daqui para frente é muito frio, e logo será inverno. Procurem andar sempre com algo acima de vocês, árvores, pedras, qualquer coisa, os Anunnakis sempre sobrevoam a região e nunca vem por baixo. Sempre que acenderem uma fogueira, que seja em um lugar coberto. Sempre façam fogueiras a noite, afasta os animais selvagens, mas, quando não precisarem mais dela, apaguem bem para o fogo não se espalhar pela floresta.
A água, daqui em diante, é boa para o consumo, já não tem a poluição da cidade. Comam somente as plantas e frutos descritos como próprios para consumo neste livro – Gilgamesh deu-lhes o livro da botânica Ninsar, livro que ajudou sua mãe após a fuga -, existem muitas plantas que são venenosas, apesar de não demonstrarem. Muito cuidado ao nadar nos rios, existem predadores perigosos, no mar então, só no raso e, com muita cautela.
- Tudo bem Gilgamesh – fala Nebo -, você já repetiu isso inúmeras vezes.
- Ele está preocupado conosco. – Interrompe Lizi - Obrigado Gilgamesh, nós devemos muito a você. Se cuide em sua viagem que, certamente, será mais perigosa que a nossa.
Lizi lhe deu um demorado abraço e um beijo. Nebo também lhe abraçou. Desejaram-se boa sorte, lagrimas surgiram no rosto de todos, afinal, poderiam nunca mais se encontrar novamente.
- Cuidem bem deste bebê – fala Gilgamesh passando a mão na barriga de Lizi -, digam a ele, que um dia, não precisará mais se esconder. Ele será livre...
- Gilgamesh – fala Lizi -, quero que leve isso e, quando encontrar Nammu, entregue a ela. – Lizi lhe entregou um cristal de dados – Nós havíamos escondido uma cópia dos arquivos que copiamos do Chanceler. Com você, estará mais segura e terá mais utilidade do que se continuar conosco. Precisa impedir que isso aconteça Gilgamesh, senão, sua busca não terá serventia alguma.
Gilgamesh assentiu com a cabeça, mas não falou nada. Não precisava, algo dizia a Lizi, que devia confiar em sua capacidade.
Saíram para lados opostos, o casal contornando o mar, rumo as cavernas, rumo a um lugar onde possam ter seu filho em paz, e começar uma nova vida. Gilgamesh seguiu sentido ao espaço-porto, onde pretende entrar, sorrateiramente, na primeira espaçonave, rumo à Nibiru, rumo ao seu destino.